quinta-feira, 3 de outubro de 2019

As Memórias de Janot

As Memórias de Janot
 As memórias de Janot acabam por mostrar que a elite governante do Brasil é composta por pessoas que, ao longo das últimas décadas, se transformaram em semirrobôs da engrenagem estatal, em tecnocratas positivistas da pior espécie, em escravos de uma vida vazia como só o Estado, com suas tentadoras e diabólicas promessas de segurança financeira e estabilidade, é capaz de oferecer.



A Vida é curta demais para ler o livro do Janot. Por isso eu li para você
Gazeta do Povo3 de outubro de 2019 15:46




O ex-procurador geral da República, com algum estardalhaço desajeitado e um imbróglio jurídico involuntário, está lançando Nada menos que tudo, seu livro de memórias, coescrito pelos jornalistas Jaílton de Carvalho e Guilherme Evelin. O livro despertou o interesse dos poucos brasileiros que ainda se dispõem a ler qualquer coisa por dois motivos. Primeiro porque Janot, em entrevista, deu vazão a seus sonhos homicidas em relação ao ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes, episódio que, aliás, não consta no livro. Depois porque as memórias de Janot, ou melhor, do doutor Janot chegam às livrarias na esteira de outros livros de relativo sucesso, todos tratando da conturbada política brasileira das últimas duas décadas.
O que move alguém a entrar na livraria, gastar algum dinheiro, voltar para casa e dedicar parte do escasso tempo ocioso da vida contemporânea a ler as memórias de um ex-procurador da República é algo que está além da minha compreensão. Diz o bom-senso que a vida é curta demais para esse tipo de leitura – e o bom-senso é bom por algum motivo. A leitura de um relato como o de Nada menos que tudo só seria justificável se Janot fosse dotado de um extraordinário talento literário ou se suas memórias revelassem escândalos capazes de fazer ruir a civilização ocidental. O que, evidentemente, não é o caso.
Foi por zelo profissional, pois, que li o livro que tem a ambição de entrar para os anais da historiografia contemporânea brasileira, mas que parece mais destinado mesmo ao anedotário. No meio jurídico, Janot se tornou alvo de discussões entremeadas por risos por causa do já mencionado caso da imaginação homicida do autor – punida orwellianamente com uma humilhante operação de busca e apreensão, ordem restritiva e ameaça de censura e até prisão. E também no mercado editorial, uma vez que o golpe publicitário dos pensamentos assassinos de Janot se transformou no mais cômico exemplo de golpe publicitário fracassado que se tem notícia desde o sumiço daquele menino no Acre. Para piorar, se Janot criou uma narrativa na qual engatilhava uma arma contra um ministro não exatamente querido do STF para criar empatia com os leitores e possíveis compradores do livro, o tiro delirante saiu pela culatra, porque Nada menos que tudo vazou na Internet, comprometendo os royalties destinados ao autor.
Li a jornada narcísica de Janot também porque seres humanos me interessam e um livro de memórias representa sempre uma oportunidade de conhecermos melhor um ser humano que, cotidianamente presente na TV, rádio e Internet, tende a se tornar um indivíduo monodimensional, muitas vezes reduzido à caricatura. É para isso, aliás, que servem os livros de memórias, os bons e também os péssimos: para revelar a pessoa real por trás do personagem, para enfatizar o lado comum, prosaico, inegavelmente humano dos episódios grandiosos, para nos aproximar do Olimpo e nos fazer perceber que os deuses ou semideuses, no dia a dia, sofrem percalços muito parecidos com os nossos.
Uma pena que Nada menos que tudo fracassasse miseravelmente em substituir o personagem da crônica político-jurídica por um homem de verdade. Não sei se por acaso ou se por total falta de talento do narrador e seus assistentes, a verdade é que as memórias de Janot acabam por mostrar que a elite governante do Brasil é composta por pessoas que, ao longo das últimas décadas, se transformaram em semirrobôs da engrenagem estatal, em tecnocratas positivistas da pior espécie, em escravos de uma vida vazia como só o Estado, com suas tentadoras e diabólicas promessas de segurança financeira e estabilidade, é capaz de oferecer.

Um servo do Estado, para o Estado, pelo Estado

No caso de Rodrigo Janot, a escravidão se completa com a ambição de entrar para a história oficial como um herói, um servo altivo e honrado do Estado, destinado a, quem sabe, figurar um dia num dicionário ilustrado ao lado do verbete “cidadania”.
Prova disso é a ausência quase total de referências à infância e juventude do autor. Aliás, para descobrir que Rodrigo Janot é também Monteiro de Barros e que nasceu em Belo Horizonte, tive de recorrer à Wikipedia. Meia hora mais tarde e vasculhando a Internet, não é possível encontrar muito mais do que isso. Como um daqueles personagens sem passado dos velhos filmes de espionagem, Janot parece ter surgido no mundo quando foi nomeado procurador-geral pela ex-presidente Dilma Rousseff. É como se ele saísse de um ventre materno tardio já de terno e gravata para assumir o cargo que lhe causaria tantos aborrecimentos.
O primeiro capítulo do livro, portanto, é dedicado a essa gestação do homem público. Janot conta que “de repente, meu celular tocou”. E a frase salta aos olhos pela ênfase no “de repente”, como se o Criador estalasse os dedos e se fizesse a luz. Era o vice-presidente Michel Temer bancando o M das histórias de James Bond e dizendo para o “cidadão comum” Janot que em breve ele teria uma missão: torna-se procurador-geral da República – com licença não para matar, como o famoso espião, mas para pedir, num futuro próximo, a prisão do próprio Michel Temer.
Daí, no único trecho do livro que, com um pouco de generosidade, se pode chamar de “humano”, Janot volta no tempo para se autoelogiar como o homem probo que, apesar do passado de tímida militância esquerdista, típico de uma geração que entrou para o funcionalismo público depois de chegar “à conclusão de que a melhor maneira seria combater o regime por dentro do Estado” e tomou posse no Ministério Público “cheio de expectativas de que ajudaria a mudar o Brasil”, pediu que um ídolo político, o ex-deputado José Genoíno, fosse preso.
E aqui o livro já começa a ganhar cor: o melancólico cinza de um homem que em muitas vezes lembra o triste amanuense Belmiro de Cyro dos Anjos (livro que li numa juventude remota e que só sobrevive em mim como impressão), nascido para ser não alma, e sim RJ, CPF e comprovante de endereço, tudo com autenticação cartorária. Um homem que sublima seus sentimentos em nome da retidão cívica, que dá a impressão de trocar facilmente a honestidade do livre-arbítrio pela honestidade do dever jurídico:
“Foi difícil, né, procurador? Dever de ofício, né?, ele [Fernando Pimentel, ex-governador de Minas Gerais e envolvido em casos de corrupção] comentou comigo.
“Foi sim, ministro, dever de ofício. Mas não dá para tergiversar em relação a isso”, respondi. Em seguida, completei com uma frase que viraria meu mantra: “A gente faz o que tem de fazer”.
Diálogo parecido acontecia meses mais tarde, consolidando o tecnocrata. Eis a conversa que Janot relata com Rogério Chequer, um dos líderes do movimento Vem Pra Rua:
“Vamos dar apoio, mas o senhor tem que investigar!” E sugeriu alvos predeterminados. Se não me falha a memória, ele chegou a dizer que tinha mais de 1 milhão de seguidores e que cobraria resultados. Eu respondi:
“Calma, rapaz, a coisa aqui é técnica”.

A jornada do herói embriagado

Se o herói Rodrigo Janot de Nada menos que tudo é gestado naquele telefonema “repentino” do então vice-presidente Michel Temer, ele nasce quando a ex-presidente Dilma Rousseff o nomeia procurador-geral. Com uma mistura de ingenuidade calculada e humor negro involuntário, Janot conta que, quando o então ministro da Justiça José Eduardo Cardozo lhe ligou chamando-o para uma reunião com a presidente que selaria sua nomeação ao cargo, ele estava etilicamente alterado.
Eu tinha de chegar ao Alvorada sem qualquer vestígio de bebida alcoólica. De imediato, Dantas [o advogado Antônio Carlos Ribeiro Dantas] propôs café com sal. Topei a sugestão e ingeri a mistura. Foi um estrago. Tive engulhos e corri para o banheiro. Vomitei o que bebera e algo mais. Para que eu me recuperasse, Dantas e minha mulher me socorreram com alguns copos de água.
Depois disso, Janot, seguindo o manual já cansado das narrativas heróicas criadas a partir das lições de Joseph Campbell, desce aos infernos. Ele visita uma série de presídios pelo país, em mais uma daquelas iniciativas estéreis do Conselho Nacional de Justiça para transformar os cárceres do país em algo que não uma “masmorra medieval”, como dita o velho clichê. É dos corredores escuros, úmidos e mal-cheirosos das piores penitenciárias do país que Janot emerge mais uma vez triunfante, destinado a cumprir um destino nobre, um Lancelot encarregado de sair pelo Reino munido de suas petições para acabar com a corrupção.
Sim, porque no capítulo 4, intitulado “Como tudo começou: todo poder a Curitiba!”, Rodrigo Janot se autoproclama pai da Lava Jato, vassalo do Estado, mas senhor da Procuradoria, incumbido, talvez por vontade divina, a criar a força-tarefa capitaneada por outro obediente servo do Estado, Deltan Dallagnol. Capitaneando essa nau de burocratas virtuosos, Janot, como um Sísifo exausto, reflete, depois de elaborada a famosa “lista do Janot”, sobre o papel da Lava-Jato da qual, vale repetir, ele se considera pai:
“Era como se a solução de nossos problemas políticos e sociais estivesse entrelaçada à lista”.

O estilo faz o homem

Rodrigo Janot, sempre mais personagem do que homem, se revela muito no estilo de suas memórias – por mais que ele tenha contado com a ajuda de dois ghost-writers. A começar pela linguagem chula e dos muitos pontos de exclamação que marcam os diálogos do livro.
“Nós temos que fazer, senão (sic) estamos fodidos. Se temos que fazer, vamos fazer! Ah, mas é presidente do Senado, é presidente da Câmara, foda-se. Se fosse o cara da esquina, não estaríamos descendo o cacete nele? Qual a diferença desse cara para o outro? Não, não, vamos fazer!”
Pior do que isso, porém, são os momentos em que o ex-procurador geral usa de um tom professoral para expressar a sapiência que acumulou em décadas de gabinetes, provavelmente lendo tomos e mais tomos de teoria do direito. “Um procurador medroso não procura (e não acha) nada”, escreve ele em certo momento, para logo em seguida concluir que “a covardia é, sim, um sinal de fraqueza”.
Não menos importante é o uso abundante de lugares-comuns. Ao longo de todo o livro, Janot “chora copiosamente”, segue “a letra fria da lei”, sofre “derrotas e vitórias acachapantes”, vai “de vento em popa”, tem “saúde de ferro”, para diante de “dúvidas que acenderam a luz amarela”, expõe “obviedades ululantes” e põe “os pingos nos is”. Recurso preguiçoso, os clichês demonstram também uma visão de mundo estreita, marcada por raciocínios fáceis que avançam apoiados em muletas idiomáticas.

A teatralidade da humilhação, do choro, dos gases e das autocertezas

O bom de ler memórias tão desinteressantes é que as páginas avançam e o leitor, desesperado por encontrar um episódio que o tire do semissono, começa a se ver interessado por longos parágrafos que, no fundo, não revelam nada. Em Nada menos que tudo, esses episódios se estendem por 250 páginas. Você vira a página e encontra lá o nome famoso (um Aécio, uma Gleisi), citado cotidianamente nas páginas de política e polícia dos jornais, e se engana, na esperança de encontrar algo que o faça saltar da poltrona – mas nada acontece.
Ao longo de intermináveis páginas que são um primor de vazio narrativo, Janot descreve, por exemplo, a humilhação a que o ex-senador e hoje deputado federal Aécio Neves se submeteu ao lhe pedir que não o investigasse. “My life is in your hands [minha vida está em suas mãos]”, teria escrito Aécio numa carta a Janot, carta esta que o ex-procurador diz ter guardado como documento histórico, mas que ele não faz nenhuma questão de mostrar ao leitor. “Talvez ao longo da história isso diga algo sobre o tamanho de alguns os nossos homens públicos”, reflete Janot, sem se dar conta de que ele está falando também de si.
Aí, quando as pálpebras estão pesando e ainda falta mais da metade do livro, o leitor se depara com um momento de humor involuntário. Ao descrever a segunda sabatina a que se submeteu no Senado, um rancoroso Janot se dedica a falar de um de seus maiores desafetos (entre tantos), o senador Fernando Collor, que se sentou na primeira fila para ficar xingando o já nervoso ex-procurador geral. Neste trecho, aliás, Janot faz questão de mostrar o quão importante ele é e quão nobres e difíceis são suas missões ao dizer que, diante da possibilidade de Collor repetir os feitos do pai e matá-lo, contratou um segurança dedicado a cravar os olhos no intempestivo senador e contê-lo num possível ataque. Até que:
Em meio àquele estranho duelo de olhares, um garçom se aproximou com um guardanapo e duas pílulas. Eu, sem entender nada do que estava acontecendo, simplesmente repeli a oferta. Logo depois reapareceu o mesmo garçom, dessa vez com um bilhete escrito à mão pela minha mulher. Minha filha, assistindo à sabatina pela TV, percebera que eu estava inquieto na cadeira e sugerira à minha esposa me passar pílulas contra gases.
Rodrigo Janot humilha um já combalido Aécio Neves, enfrenta os olhares furiosos de Collor, mas se derrete todo diante de Gleisi Hoffmann. Ao narrar um encontro que teve com a ex-senadora, que aparentemente foi buscar consolo para os problemas do ex-marido, Paulo Bernardo, um desavergonhado Janot mais uma vez mostra que seu senso de dever nada tem a ver com uma base moral sólida, e sim com a submissão ao Estado e à instituição que ele parece representar a contragosto.
Com a voz baixa e visivelmente abatida, a senadora começou dizendo reconhecer erros cometidos por Paulo Bernardo, mas argumentando que estavam colocando carga demais sobre o marido. No meio da conversa, ao relatar o sofrimento dela e dos filhos, ainda crianças, diante da prisão do pai, começou a chorar. Eu disse: “Senadora, eu sei o que é sofrimento em família, mas o que deve ser feito será feito”. Nesse momento, também vi que estava chorando.

Acerto de contas consigo mesmo

Não há, em Nada menos que tudo, espaço algum para a transcendência, a reflexão, o autoexame da alma, todas essas coisas que um leitor busca num livro de memórias. Para Rodrigo Janot, tudo é preto-no-branco. Nuances desaparecem completamente até mesmo quando o narrador conta episódios como o das gravações dos irmãos Batista, que quase provocaram a queda do ex-presidente Michel Temer e que rendeu aos empresários uma controversa imunidade penal.
Ao falar da delação dos executivos da Odebrecht, por exemplo, Janot mais uma vez se revela um ser reduzido a um cargo estatal, um narcisista destinado a livrar o país da corrupção, nem que para isso tenha que prejudicar a própria saúde. Ele conta que, durante as negociações com os executivos, descobriu dois carcinomas no rosto. “A descoberta de uma doença que pode ter consequências graves não deixa ninguém feliz, mas minha preocupação naquele momento era outra. Como tomar uma dose de Dormonid®, necessária para aquela cirurgia, sem colocar em risco o mais cobiçado segredo da República?”, conta, numa tentativa de transformar um vazio existencial e moral numa virtude.
Rodrigo Janot, por sinal, só dá sinais de ser algo além de um escravo do Estado quando bebe vinho (situação que se repete preocupantemente durante o livro) e, já no final, quando exalta os próprios dotes culinários. “A alegria pelas coisas simples é o que nos torna semideuses”, conclui ele, revelando, mais uma vez, como se vê e como pretende ser visto.
Isso porque Janot não está preocupado em deixar o livro com um legado. Ele está interessado apenas em prestar contas para si mesmo, exaltando seus feitos, justificando de forma quase infantil seus quase inexistentes erros e dizendo que aqueles que o criticaram só fizeram isso porque não foram capazes de entender sua lógica brilhante e honrada. Nada menos que tudo é isso: página após página, uma tentativa de legitimar as ações de um personagem secundário que se vê como protagonista, sem qualquer tipo de reflexão mais profunda.
Janot, contudo, se trai nas muitas entrelinhas do livro que, no mais, não passa de um gigantesco e cansativo ato falho. O leitor que se colocar no papel de psicanalista e ouvir com atenção a voz monótona do paciente, com seus pretensiosos pretéritos-mais-que-perfeitos, vai descobrir ali um ser com vocação para autômato positivista, um verdadeiro, inequívoco e assustador representante da tecnocracia brasileira.

Brasil Sabotado Continuamente

Brasil Sabotado Continuamente
Com projeto soberano, o Brasil pode ser uma potência mundial
Luiz Muller3 de outubro de 2019 16:19


Por Felipe Quintas, Gustavo Galvão e Pedro Augusto Pinho
Publicado originalmente no Monitor Mercantil
O mundo do fim da história de Francis Fukuyama já passou. Antes se fora o mundo bipolar da guerra fria. O século XXI encontra o mundo com diversidades e novas alianças que tornam menos eficazes os Impérios. Estes, por seu turno, avançam em ameaças, bloqueios, represálias tentando manter um poder que se esvai.
Talvez nosso caro leitor não se dê conta da importância econômica e política de blocos como a União Africana (UA), que congrega 54 Estados-membros, ou da Organização para a Cooperação de Xangai (OCX), onde o presidente do país anfitrião (Cazaquistão), Nursultan Nazarbayev, cumprimentou os convidados, em 2005, com palavras surpreendentes para aquele contexto: “Os líderes dos Estados sentados a esta mesa de negociação são representantes de metade da humanidade”, e eram apenas dez países.
A imprensa, os governos das antigas potências do Atlântico Norte procuram disfarçar suas constantes derrotas políticas, militares, econômicas, sociais e culturais, que as forças emergentes de um novo mundo lhes infligem. Como na canção da cubana Maria Teresa Vera (1895-1965), Veinte Años, o Império euro-estadunidense sabe que “hoy represento el pasado, no me puedo conformar”.
EUA e Europa sabem que hoje representamo passado e não conseguem se conformar
O Brasil tem as condições de ser potência mundial. O que o impede de se efetivar é sua elite dirigente; escravocratas que se contentam com as comissões do servilismo primário-exportador e com o rebaixamento contínuo dos níveis de vida da população que governam.
Não são as fracas e inconsistentes esquerdas ou as corrupções, que são cometidas pelos que dominam o poder há dois séculos, que impedem o Poder Nacional Brasileiro. É a luta destas elites contra a industrialização de seu próprio país e contra a proteção social do seu próprio povo.
Num olhar para a História do Brasil, vê-se que até a Revolução de 1930 quase nada foi feito para incluir e instruir o povo brasileiro. Os ministérios da Educação e da Saúde Pública e o do Trabalho, Comércio e Indústria só passaram a existir com Getúlio Vargas.
Mas foi muito pior do que apenas a omissão. Foi o permanente combate à industrialização e ao Estado social, como a revolta paulista de 1932, os golpes de 1945, 1954, 1964 e 2016, todos com o objetivo impedir o desenvolvimento industrial e social brasileiro. Cabe perguntar a razão desta atitude: um tiro no pé de brasileiros contra brasileiros, ou melhor, de “brazileiros” contra brasileiros.
Tentemos compreender esta elite do atraso, como a denomina o sociólogo Jessé Souza, na descrição que dela fez em seu livro A Elite do Atraso – Da Escravidão à Lava Jato (Casa da Palavra/Leya, RJ, 2017):
“Ideias do Estado e da política corrupta servem para que se repasse empresas estatais e nossas riquezas do subsolo a baixo custo para nacionais e estrangeiros que se apropriam privadamente da riqueza que deveria ser de todos. Essa é a corrupção real.”
E adiante: “O imbecil perfeito é criado quando o cidadão espoliado passa a apoiar a venda subfaturada desses recursos a agentes privados imaginando que assim evita a corrupção estatal. Como se a maior corrupção não fosse precisamente permitir que uma meia dúzia de super-ricos ponha no bolso a riqueza de todos, deixando o resto na miséria. Essa foi a história da Vale.”
Não é a esquerda ou as corrupções, é a lutadas elites contra seu próprio país e seu povo
Constrói-se, com a pedagogia colonial e a ausência de uma estrutura de comunicação de massa não comercial, aberta e nacional, um paradoxo: a capacidade do brasileiro de vencer desafios, como a construção dos melhores aviões de médio porte, a produção de petróleo em águas ultraprofundas, o ineditismo em soluções para energia nuclear e muitas outras conquistas científicas e tecnológicas, que receberam prêmios, troféus e considerações internacionais, foi obnubilada, desconsiderada diante do suposto “jeitinho” brasileiro e do tão difundido “complexo de vira-lata”.
Estas elites, cujos olhos estão invejosamente postos no exterior, reprimem a emancipação da população brasileira; quer vê-la submissa, escrava, para não saber que esta elite tem os pés de barro, vive da corrupção e dos negócios sujos, indecentes, legalizados por congressos e judiciários igualmente venais.
A industrialização exigiria a demonstração deste conhecimento, a formação de capacitação, a emancipação e o orgulho de ser o mestiço brasileiro, o afrodescendente, este povo tolerante, sem ódio e hospitaleiro. E formaria o mercado onde seria o usuário destas exportações aviltadas pelo câmbio imposto pelo comprador. Através da industrialização, o Brasil estaria sentado à mesa das decisões mundiais, pela riqueza humana, que esta elite não é capaz de mostrar, a não se por mínimas exceções.
A 11 de novembro de 1940, no Rio de Janeiro, assim se expressou, num ágape, o maior presidente do Brasil, Getúlio Vargas (A Nova Política do Brasil, vol. VIII, José Olympio Editora, RJ, 1941):
“Numa sociedade onde os interesses individuais prevalecem sobre os interesses coletivos, a luta de classe pode surgir com o caráter de uma reação de consequências funestas. Por isso, as leis sociais, para serem boas e adaptáveis, devem exprimir o equilíbrio dos interesses da coletividade, eliminando os antagonismos, ajustando os fatores econômicos, transformando, enfim, o trabalho em denominador comum de todas as atividades úteis. O trabalho é, assim, o primeiro dever social. Tanto o operário como o industrial, o patrão como o empregado, realmente voltados às suas tarefas, não se diferenciam perante a Nação no esforço construtivo: são todos trabalhadores. Diante deles e contra eles só há uma classe em antagonismo permanente, cuja nocividade é preciso combater e reduzir ao mínimo: a dos homens que não contribuem para o engrandecimento do país, a dos ociosos, a dos parasitas”, os vendilhões da pátria e os escravocratas, estes capitães-do-mato de pele branca. Aqueles que se humilham diante dos estrangeiros que lhes retribui com as esmolas pela espoliação, pelo esbulho do Brasil.
E o Brasil dessa elite não tem lugar nos foros internacionais, onde sofrem com o mesmo desrespeito com que tratam os seus naturais. Para facilidade de compreensão da ignara elite, vamos dividir a presente situação mundial em dois blocos: o da produção e o da esterilidade.
Pertencem ao bloco da esterilidade todos os governos e sistemas de poder que se curvam ao neoliberalismo. Que consideram o capital financeiro mais importante do que o ser humano, que tiram dinheiro da saúde, da educação, da aposentadoria dos mais frágeis para engordar, com juros imorais e operações financeiras ou jogatinas aéticas, a riqueza dos bancos. Que, em comportamento que poderíamos nominar de psicopata, apenas veem o lucro, a eliminação da concorrência, a concentração de renda como objetivo de vida, sem atentar para qualquer valor moral.
A capacidade do brasileiro de vencer desafios foi obnubilada diante do suposto ‘jeitinho’
Os neoliberais são na efetividade os grandes corruptores e também os corruptos, que tanto assombram a classe média invejosa de seus triunfos amorais; e que apenas não são ilícitos pela compra dos legislativos e dos judiciários, como Jessé Souza descreveu em A classe média no espelho (Estação Brasil, RJ, 2018).
No outro polo estão países e ideologias do desenvolvimento humano, da produção, da industrialização e do conhecimento. Se, na esterilidade do capital financeiro, basta ter dinheiro para ganhar dinheiro, no sistema produtivo o saber é valorizado, do operário qualificado, do tecnólogo criativo, do cientista dedicado. E há espaço e necessidade do trabalho, do trabalhador que vai acionar todo sistema como consumidor e contribuinte. É o sistema do capital industrial que gera renda, lucro, salário e imposto, satisfazendo o próprio capital, o trabalho e o Estado Nacional.
Só faltaria nacionalismo, ou seja, visão coletiva baseada no sentimento de pertencimento a uma nação, para o Brasil ser – pelo território e suas riquezas naturais, pela população e sua capacidade – um grande país e, assim, sentar-se como referência à mesa dos organismos internacionais da produção e a eles se alinhar. Pela ação de traidores da Pátria, que alienam o saber e o patrimônio nacional para o capital estéril, ficamos paralisados como uma vaca leiteira que vê roubada sua abundante riqueza enquanto seus filhos têm fome.
No número 4, volume XXVI, o Solidariedade Ibero-Americana (1ª quinzena de agosto de 2019) apresenta a seguinte chamada na capa: “Enquanto a Iniciativa Cinturão e Rota, encabeçada pela China com a cooperação da Rússia, se consolida como uma nova proposta para o relacionamento entre as nações, os EUA e o Reino Unido se obstinam em criar focos de desestabilização”. Poder-se-ia incluir Israel neste conjunto belicoso, pois estes países do capital estéril já declararam guerra contra o capital produtivo e a própria humanidade com seu projeto e ações neomalthusianas.
Ao fim, como assinala Jessé Souza, existe uma necessidade interna, imaterial, especificamente humana que tem a ver com “o desafio de construir uma vida virtuosa e feliz”. Urge uma profunda mudança política e institucional para que o Brasil seja devolvido aos brasileiros e que nossos imensos recursos possam ser aproveitados internamente para que uma vida assim seja possível a todos.
Felipe Quintas
Doutorando em Ciência Política pela Universidade Federal Fluminense.
Gustavo Galvão
Doutor em economia e autor de As 21 lições das Finanças Funcionais e da Teoria do Dinheiro Moderno (MMT).
Pedro Augusto Pinho
Administrador aposentado.