terça-feira, 16 de julho de 2019

Sob o signo da república neonazifascista dos bolsonaros

Sob o signo da república neonazifascista dos bolsonaros
Trama de uma guerra declarada
Observatório da Imprensa16 de julho de 2019 16:54


(Foto: Fernando Frazão/Agencia Brasil)
Publicado originalmente na Revista de Jornalismo ESPM
A eleição de Jair Bolsonaro veio acompanhada da promessa de mudanças na relação do governo com o campo da mídia. A campanha eleitoral, no segundo semestre de 2018, e os primeiros meses de governo deram indicações de que há uma reconfiguração em andamento. A nova situação política afeta as relações de poder e a influência dos grupos de comunicação tradicionais e, não menos importante, coloca em posição de destaque a chamada nova mídia. Lives no Facebook, postagens no Twitter e mensagens no WhatsApp ocuparam, pela primeira vez no Brasil, um lugar relevante na disputa política e no concorrido mercado de produção de conteúdo noticioso.
Não é a primeira vez, em tempos recentes, que uma expectativa de mudança na correlação de forças no campo da mídia é alimentada. Em 2002, por exemplo, a eleição de Lula estimulou muitas especulações a respeito, mas o próprio se encarregou de dissipar a onda assim que o resultado das urnas foi anunciado. Ainda no domingo, 27 de outubro, o presidente eleito falou com exclusividade ao Fantásticoe, no dia seguinte, novamente privilegiou a Globo ao se sentar na bancada do Jornal Nacionale ali permanecer por mais de uma hora, durante toda a duração do telejornal.
Bolsonaro tem dado sinais de que pretende, de fato, promover alterações na sua relação com as emissoras de TV. Ressalvo, porém, que ainda é cedo para afirmar se essa intenção declarada resultará em mudanças efetivas no médio e longo prazos. Alguns fatos significativos ocorridos entre outubro de 2018 e março de 2019 sugerem traços de um novo desenho no campo da comunicação. Vou tentar descrevê-los e analisá-los em seguida.
Período eleitoral (setembro/outubro)
O quadro começou a se desenhar ainda no primeiro turno da eleição presidencial. Na quinta-feira, 4 de outubro, três dias antes da votação, a Record exibiu uma entrevista com Bolsonaro no mesmo instante em que a Globo apresentava o último debate eleitoral. Na véspera, um médico de Bolsonaro havia informado que o candidato não poderia comparecer ao debate, uma vez que ainda se recuperava do atentado a faca que havia sofrido em Juiz de Fora, em 6 de setembro.
A entrevista foi gravada durante o dia, na casa de Bolsonaro. Além do repórter Eduardo Ribeiro, que fez as perguntas, o então vice-presidente de jornalismo da Record, Douglas Tavolaro, foi fotografado no local, acompanhando a gravação. Quatro dias antes, o bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal e proprietário da Record, havia declarado publicamente, nas redes sociais, apoio à candidatura de Bolsonaro.
O mais grave desse episódio, na minha opinião, foi a decisão da Record de exibir a entrevista no mesmo instante em que a Globo mostrava o debate. Como escrevi na época¹, pensando no interesse público, faria muito mais sentido que essa entrevista fosse exibida em horário que não coincidisse com o debate, dando a oportunidade aos espectadores de assistirem, se quisessem, aos dois eventos.
As campanhas de Fernando Haddad (PT), Ciro Gomes (PDT) e Geraldo Alckmin (PSDB) cogitaram recorrer ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) para impedir que a Record transmitisse a entrevista. Ciro e Alckmin, porém, desistiram de tomar essa iniciativa. O PT seguiu em frente, mas o TSE negou liminar ao partido.
Bolsonaro teve a oportunidade de falar abertamente sobre as suas ideias e projetos, além de atacar os adversários, sem ser contestado em momento algum pelo entrevistador. Perguntas abertas e sem foco permitiram que o candidato discursasse livremente. Em boa parte dos 27 minutos, o Jornal da Record pareceu o horário da propaganda eleitoral gratuita que Bolsonaro não teve durante a campanha (tinha direito a apenas 10 segundos por programa).
A Record não foi a única a conseguir falar com o candidato nesse período pós-internação hospitalar por causa do atentado. Dias antes, José Luiz Datena (Band) e Boris Casoy (RedeTV!) entrevistaram Bolsonaro no hospital Albert Einstein, em São Paulo. Os dois profissionais foram educados e respeitosos com o candidato, como seria de esperar, mas levantaram questões mais complexas e replicaram respostas de Bolsonaro, o que não se viu na entrevista dada à Record.
Essa ajuda da Record a um candidato presidencial pode ser comparada à famigerada edição do último debate entre Collor e Lula em 1989, exibida no Jornal Nacional dois dias antes do segundo turno da eleição. O favorecimento ao então candidato do PRN, determinado pelo dono da emissora, foi reconhecido 22 anos depois, no documentário Roberto Marinho – O senhor do seu tempo (2011), de Rozane Braga. “Nós erramos. Erramos com a intenção de acertar”, disse João Roberto Marinho.²
Em recuperação médica, Bolsonaro cancelou a participação em todos os debates presidenciais previamente programados para o segundo turno. Foi a primeira vez, desde a volta de eleições diretas em 1989, que não houve debate presidencial no segundo turno (em 1994 e 98, a eleição foi decidida no primeiro turno).³ E Bolsonaro e Haddad chegaram às urnas sem jamais terem se enfrentado em um debate – no primeiro turno, dos sete encontros do gênero, o candidato do PSL esteve nos dois primeiros e o candidato do PT nos quatro últimos.
A desistência de Bolsonaro de participar do último debate, na Globo, foi marcada por uma ironia. Ao oficializar o cancelamento, em 22 de outubro, a campanha enviou à emissora uma nota de seu médico acompanhada de uma reportagem exibida pela Record, um dia antes, na qual era descrito o quadro de saúde do candidato.
Campanhas eleitorais sempre geram reclamações de candidatos contra a mídia. É uma tradição. Mas o tom do ataque do PT à Record foi muito acima da média. Em sabatina no jornal O Globoem 23 de outubro, Haddad disse a respeito de Edir Macedo: “Um cara usar uma concessão de TV para fazer campanha aberta a um candidato. Nunca vi isso acontecer no Brasil. E ainda fazer do púlpito das igrejas lugar de comício para difamar o adversário. Falar de coisa que nunca existiu, que nunca aconteceu”. Ainda no primeiro turno, o candidato do PT havia afirmado que a candidatura de Jair Bolsonaro “é o casamento do neoliberalismo desalmado, representado pelo Paulo Guedes, que corta direitos trabalhistas e sociais, com o fundamentalismo charlatão do Edir Macedo”. Em resposta, na ocasião, a Igreja Universal afirmou que iria processar Haddad.
Em 25 de outubro, a três dias do segundo turno, a Record divulgou uma longa nota, na qual rebateu as diferentes críticas recebidas durante a campanha. Classificou os comentários de Haddad como “declarações caluniosas, falsas e preconceituosas”. Sobre a entrevista com Bolsonaro exibida no dia do último debate no primeiro turno, disse se tratar de “uma estratégia do mercado de televisão que visa transmitir ao telespectador informações em primeira mão com agilidade”. E sobre o apoio de Macedo ao candidato, a Record afirmou: “Um direito individual garantido pela Constituição e já exercido por ele em eleições anteriores. A decisão em nada influencia as posições da emissora, que tem um jornalismo premiado internacionalmente e reconhecido pelo público e anunciantes. Não aceitamos os ataques covardes à nossa conduta pautada numa só direção: jornalismo imparcial a serviço dos brasileiros”.
Entre o atentado a faca e a eleição, a Globo falou com Bolsonaro apenas uma vez, de forma breve e improvisada, dentro do avião que o levou de São Paulo ao Rio após a alta hospitalar. Contra a pressão da militância petista, que pediu à emissora para entrevistar Haddad no horário destinado ao debate, a Globo ateve-se ao que havia sido combinado originalmente: “Na reunião de elaboração das regras do evento foi acertado com as assessorias dos candidatos que, se Jair Bolsonaro não pudesse comparecer por razões de saúde, o debate não seria substituído por entrevistas”.
Transição (novembro/dezembro)
Original, a liturgia bolsonariana após a confirmação da vitória nas urnas diz muito sobre a visão que o hoje presidente tem do campo da comunicação. Trinta minutos depois da divulgação dos resultados oficiais, em 28 de outubro, Bolsonaro surgiu ao vivo, em uma conexão transmitida em seu perfil oficial no Facebook, no qual tem mais de 9 milhões de seguidores. Cerca de 300 mil pessoas o acompanharam ao vivo, por cerca de oito minutos. Uma hora após a live, o vídeo acumulava 2 milhões de reproduções e mais de 350 mil comentários.
A comunicação não ocorreu na sede do seu partido ou em um hotel, como costumam fazer políticos nessa situação. Bolsonaro permaneceu em casa. Ao lado da mulher, Michelle, e de uma intérprete de libras, ele iniciou a transmissão dizendo: “Quero agradecer a Deus pela oportunidade”. E explicou a razão de estar fazendo uma comunicação direta: “Esse primeiro contato meu, via live, deve-se ao respeito, à consideração e à confiança que tenho no povo brasileiro. Só cheguei aqui porque vocês, internautas, povo brasileiro, acreditaram em mim”.
Um pouco depois dessa live, Bolsonaro foi à frente de casa e leu um discurso para todas as emissoras de televisão reunidas em pool. Um repórter da Globo, Paulo Renato Soares, foi escalado para representar o conjunto da mídia. Enquanto o presidente eleito falava, uma equipe da Record registrava imagens exclusivas, dentro de sua casa, de bastidores.
No dia seguinte, Bolsonaro apareceu nas cinco principais emissoras de TV aberta do país em pouco menos de duas horas. No total, falou por cerca de 90 minutos em conversas ao vivo com a Record (33 minutos), SBT (8) e Globo (12), e gravadas com Band (28) e RedeTV! (7). Foi o início da guerra declarada a setores da mídia.
A Record não foi apenas a que teve direito a mais tempo. Teve o privilégio de ser a primeira a falar com Bolsonaro e foi a única a receber elogios do presidente eleito. “Parabéns pela votação e obrigado por me receber mais uma vez. Boa noite, presidente”, disse o repórter Eduardo Ribeiro. “Boa noite. Eu que agradeço o jornalismo isento da Record”, respondeu. Na conversa, Bolsonaro falou da intenção de “privatizar ou extinguir” a TV Brasil, “uma TV que tem traço de audiência” – um plano que, aparentemente, foi revisto.
Já a entrevista à Globo teve como um de seus assuntos principais a Folha. Por dois minutos, Bolsonaro e William Bonner falaram sobre o jornal. O apresentador do Jornal Nacional quis saber: “O senhor vai continuar defendendo a liberdade da imprensa e a liberdade do cidadão de escolher o que ele quiser ler, ver ou ouvir?”. O presidente eleito disse: “Sou totalmente favorável à liberdade de imprensa. Temos a questão da propaganda oficial do governo, que é outra coisa”.
Disse, então, que precisava fazer justiça a uma funcionária do seu gabinete apontada pela Folha como funcionária fantasma em uma reportagem. “Não quero que ela [a Folha de S.Paulo] acabe, mas no que depender de mim, na propaganda oficial do governo, imprensa que se comportar dessa maneira, mentindo descaradamente, não terá apoio do governo federal”, disse. Bonner insistiu: “Então, o senhor não quer que esse jornal acabe? O senhor está deixando isso claro agora”. A questão deu oportunidade para um novo ataque de Bolsonaro: “Por si só, esse jornal se acabou”. E acusou a Folhade ter divulgado fake news contra ele durante a campanha eleitoral.
De improviso, Bonner disse que, apesar de críticas que considera injustas feitas pela Folha ao JN, respeita o jornal. “A Folha é um jornal sério, é um jornal que cumpre um papel importantíssimo na democracia brasileira. É um papel que a imprensa profissional brasileira desempenha e a Folha faz parte desse grupo”. No mesmo dia, a Folharespondeu às críticas e acusações de Bolsonaro, mostrou que o presidente eleito havia se enganado em relação à reportagem sobre a sua funcionária e registrou que os comentários feitos no JNintensificaram um movimento espontâneo nas redes sociais para que as pessoas assinassem o jornal.
O mês de novembro foi marcado por declarações explícitas de apoio a Bolsonaro de Silvio Santos, dono do SBT, e de Marcelo de Carvalho, sócio e vice-presidente da RedeTV!. O primeiro conversou com o presidente eleito por telefone, ao vivo, durante o evento beneficente Teleton. De improviso, após festejar a escolha de Sergio Moro para ministro da Justiça, Silvio disse: “O Brasil vai ter dezesseis anos de homens com vontade de fazer o Brasil caminhar. Pode ser que isso não aconteça, mas se depender, eu não vou viver até lá, é claro, mas se depender da minha vontade e das pessoas que querem um Brasil pra frente, oito anos com Bolsonaro e oito anos com Moro. Vai ter dezesseis anos de um bom caminho. Peço a Deus que isso se realize”.
Entre outubro e dezembro, a Record fez cinco entrevistas exclusivas com Bolsonaro. A emissora teve ainda o privilégio de ser a única a exibir uma entrevista com a futura primeira-dama, Michelle Bolsonaro. E, em mais de uma ocasião, teve acesso a imagens de Bolsonaro na intimidade, seja em sua casa, seja no hospital, fazendo exames. Depois da Record, a emissora que mais teve acesso a ele foi a Band, com direito a três entrevistas. A RedeTV! conseguiu entrevistar Bolsonaro duas vezes no período. Globo e SBT exibiram apenas uma exclusiva com Bolsonaro, mas Silvio Santos também falou ao vivo com ele no Teleton.
No poder (janeiro a março)
Os primeiros meses do governo Bolsonaro se mostraram extremamente confusos no que diz respeito a suas relações com a mídia. O presidente reduziu o recurso a lives no Facebook, mas intensificou o uso do Twitter, fazendo anúncios oficiais, respondendo a seguidores e batendo boca com adversários e, até, com aliados. Esse início de governo foi marcado, também, por dois episódios que explicitaram a nova configuração do campo – com a Record no papel de emissora aliada e a Globo como “inimiga”.
Num domingo, 20 de janeiro, o senador Flavio Bolsonaro (PSL-RJ) escolheu o programa Domingo Espetacular, da Record, para responder a duas denúncias divulgadas pelo Jornal Nacional nas edições de sexta (18) e sábado (19). O telejornal da Globo havia levantado novas informações sobre movimentações financeiras suspeitas do senador. De forma inédita, na mesma noite em que foi ao ar a entrevista à Record, ela mereceu reparos da Globo, no Fantástico. A apresentadora Ana Paula Araújo observou que o programa concorrente deixou de fazer duas perguntas a Flavio Bolsonaro que poderiam ter esclarecido melhor o que foi dito. E, com alguma ironia, registrou que o senador não respondeu a uma questão essencial porque não foi questionado a respeito. A Record não comentou o episódio. O repórter Lucio Sturm, questionado por mim, disse que teve liberdade para perguntar o que quisesse a Flavio Bolsonaro.
Um fato de certa forma cômico, que mostra a confiança de Bolsonaro na Record, ocorreu em 23 de janeiro. O presidente viajou a Davos, na Suíça, para participar do Fórum Econômico Mundial. Foi o seu primeiro evento internacional desde a posse. Uma entrevista coletiva a jornalistas do mundo inteiro havia sido agendada, mas foi cancelada 40 minutos antes de ocorrer. Assessores deram justificativas diferentes para o cancelamento. À noite, Bolsonaro deu uma entrevista à Record, em Davos, para explicar por que cancelou a entrevista coletiva. Justificou que foi por “recomendação médica”, para “chegar descansado” a São Paulo, alguns dias depois. Em 28 de janeiro, o presidente se submeteu a uma cirurgia para retirada da bolsa de colostomia que usou desde que havia sido esfaqueado.
Em fevereiro, a revista Vejadivulgou áudios de mensagens enviadas pelo presidente Bolsonaro ao então ministro Gustavo Bebianno, da Secretaria-Geral de governo. Em um deles, o presidente ordena que o assessor cancele uma reunião agendada com Paulo Tonet Camargo, vice-presidente de relações institucionais do Grupo Globo. “Gustavo, o que eu acho desse cara da Globo dentro do Palácio do Planalto? Eu não quero ele aí dentro. Qual a mensagem que vai dar para as outras emissoras? Que nós estamos se [sic] aproximando da Globo. Então não dá para ter esse tipo de relacionamento. Agora… Inimigo passivo, sim. Mas trazer o inimigo para dentro de casa é outra história”. Além de explicitar a visão que tem da Globo (um “inimigo”), a preocupação com o que vão pensar as outras emissoras sugere haver algum tipo de compromisso do presidente com elas.
Dois fatos novos, surgidos nesses primeiros meses de governo, merecem registro pelas possíveis repercussões que poderão ter no campo da mídia no decorrer do governo Bolsonaro. A Folhanoticiou, em 8 de janeiro, que o governo tem pronto um projeto de lei destinado a proibir um instrumento de negociação comercial que, segundo críticos, garante o domínio da Rede Globo no mercado publicitário de TV aberta no Brasil. É o chamado “BV”, ou bonificação por volume, uma comissão que os veículos de comunicação dão para as agências que os escolhem como destinatários da verba de publicidade.
Em 15 de janeiro, o empresário Rubens Menin e o jornalista Douglas Tavolaro, até então vice-presidente da Record, anunciaram a criação da CNN Brasil, um canal de notícias 24 horas, para a TV paga, com marca licenciada pelo canal CNN Internacional. Com previsão de entrar em operação no segundo semestre, o empreendimento deve contar com 400 profissionais. Três dias depois do anúncio, os sócios foram recebidos no Planalto por Bolsonaro e seu filho Eduardo, que é deputado federal. O licenciamento inclui uma série de compromissos, mas a linha editorial do canal brasileiro é totalmente independente do americano.
Uma consideração final
O panorama traçado aqui buscou reunir uma série de fatos e também de indícios que apontam para uma mudança significativa nas relações do governo federal com algumas das principais empresas de comunicação do país. O que se viu até o momento é inédito no Brasil. Pela primeira vez desde a redemocratização, em 1985, um governo se refere à Globo como “inimiga” e afaga de forma tão explícita um concorrente. Não ouso, porém, especular sobre os próximos capítulos dessa história e muito menos sobre as consequências desse redesenho.
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¹Record ajuda Bolsonaro ao exibir entrevista na hora do debate da Globo, 5 de outubro de 2018, blog do Mauricio Stycer, no UOL.
²Segundo o depoimento de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, Boni, a percepção na Globo é que Collor havia vencido o debate contra Lula, mas Roberto Marinho entendeu que a primeira edição do encontro, exibida no Jornal Hoje, não expressava isso. “E mandou reeditar esse debate.” No documentário, Boni cita Armando Nogueira (1927-2010), então diretor de jornalismo, que teria dito: “Collor ganhou o debate por 3 a 2. O doutor Roberto mandou editar de 3 a 0.”
³FHC (1998), Lula (2006) e Dilma (2014) faltaram a debates no primeiro turno.
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Mauricio Stycer é jornalista, crítico de TV do UOL, colunista da Folha. Autor de Topa Tudo por dinheiro – As muitas faces do empresário Silvio Santos(Todavia), Adeus, controle remoto – Uma crônica do fim da TV como a conhecemos (Arquipélago) e História do Lance! – Projeto e prática de jornalismo esportivo(Alameda).

A fome que ignoramos

A fome que ignoramos

Sem merenda: quando férias escolares significam fome no Brasil

ParaisópolisDireito de imagemMARIANA SANCHES/BBC
Image captionAlessandra não tinha comida para oferecer aos filhos em férias: "me corta o coração eles quererem um pão e eu não ter pra dar"
O pano de prato vermelho adorna há dias a tampa do fogão e não existe expectativa de que ele seja retirado dali em breve: não há comida para preparar no barraco em que Alessandra, de 36 anos, mora com cinco filhos - o mais velho de nove anos e o menor de 16 dias. As crianças, em férias escolares, pulam e correm agitadas, se escondem entre as vielas, e Alessandra sabe que em breve chegará o momento em que elas vão pedir para almoçar.
"Me corta o coração eles quererem um pão e eu não ter. Já coloquei os meninos na escola pra isso mesmo, por causa da merenda. Um pouquinho de arroz sempre alguém me dá, mas nas férias complica", afirma Alessandra, que, desempregada, coleta latinhas na favela de Paraisópolis, em São Paulo, onde mora. No dia da entrevista à BBC News Brasil, os filhos de Alessandra iriam recorrer à casa da avó para conseguir se alimentar.
O drama de Alessandra não é incomum. As férias escolares - quando muitas crianças deixam de ter o acesso diário à merenda - intensificam a vulnerabilidade social de muitas famílias em todo o país. Embora variem em conteúdo e qualidade - às vezes são apenas bolacha ou pão, em outras, são refeições completas de arroz, feijão, legumes e carne - as merendas ocupam função importante no dia a dia de certos alunos. Para essas crianças, nos períodos sem aulas é que a fome, uma ameaça ao longo de todo ano, se torna uma realidade a ser enfrentada.
No Paranoá Parque, conjunto habitacional do Minha Casa Minha Vida que fica a 25 minutos de distância do Palácio do Planalto, em Brasília, as crianças passam os dias livres empinando pipa, de estômago vazio. "No final da tarde, elas me pedem, 'tia, tem um pãozinho aí para mim?' Se chega pão de doação, acaba tudo em um minuto", conta Maria Aparecida de Souza, líder comunitária no bairro.
Doações recebidas no Paranoá Parque no ano passadoDireito de imagemARQUIVO PESSOAL
Image caption"No final da tarde elas me pedem, 'tia, tem um pãozinho aí para mim?' Se chega pão de doação, acaba tudo em um minuto", conta Maria Aparecida de Souza (de pé), líder comunitária no bairro.
Foi ali que, em 2017, um menino, na época com oito anos, desmaiou de fome durante as aulas e virou notícia nacional. Ele estudava em um colégio a 30 km de distância de sua casa, onde recebia como refeição apenas bolacha e suco. De lá para cá, a situação dos quase 30 mil moradores da área não parece ter melhorado.
"É muito desemprego, mães com cinco, seis ou oito filhos que não têm nada dentro de casa. Nem mesmo colchão, gás para cozinhar ou cobertor para este frio. Nas férias, algumas mulheres não têm o que dar aos filhos. Tenho 48 anos, sempre trabalhei nisso (assistência comunitária), e nunca vi a coisa tão ruim quanto está agora. Temos aqui no bairro 285 famílias em situação de miséria total", diz Souza.

'Se eu pagar a prestação da casa, não temos o que comer'

Embora não haja estudos nacionais que indiquem o tamanho da insegurança alimentar durante o período de férias escolares, uma série de indicadores comprova a evolução da pobreza no país e o modo como ela incide sobre as crianças.
De acordo com a Fundação Abrinq, que fez cálculos a partir de dados do IBGE, 9 milhões de brasileiros entre zero e 14 anos do Brasil vivem em situação de extrema pobreza.
O Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional do Ministério da Saúde (Sisvan) identificou, no ano retrasado, 207 mil crianças menores de cinco anos com desnutrição grave no Brasil.
Merenda em escola cearense, em foto de arquivoDireito de imagemEDUARDO AIGNER/MDS
Image caption'Testemunhos de pessoas em áreas de vulnerabilidade social indicam que (a merenda escolar) acaba sendo a garantia de consumo mínimo de alimentos durante o ano letivo para parte das crianças', diz especialista; acima, merenda de escola cearense, em foto de arquivo
A mais recente pesquisa de Segurança Alimentar do IBGE, de 2013, apontava que uma a cada cinco famílias brasileiras tinha restrições alimentares ou preocupação com a possibilidade de não ter dinheiro para pagar comida.
Se a pesquisa fosse feita hoje, a família da faxineira Marinalva Maria de Paula, de 57 anos, se enquadraria nessa condição. Com uma renda de R$ 360 mensais para três adultos e uma criança, ela se vê cotidianamente frente a decisões dramáticas:
"Se eu pagar a prestação do apartamento ou a conta de água, não temos o que comer. Quando a situação aperta, prefiro dar comida pra minha neta e durmo com fome", conta Marinalva, que teme despejo do prédio do Conjunto Habitacional (COHAB) em que mora, em São Paulo, por falta de pagamento do valor do imóvel e do condomínio.
A vasilha de arroz funciona como um termômetro da aflição de Marinalva: no dia da entrevista, restavam apenas dois dedos de cereal no pote. Com as férias da criança, de 3 anos, a comida que avó consegue manter nos armários acaba mais cedo e é preciso partir em busca de doações. O fenômeno que acontece na casa da faxineira já havia sido identificado pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) em 2008, quando um terço dos titulares do Bolsa Família declaravam em pesquisa que a alimentação da família piorava durante as férias escolares.
"Quando minha filha me deu essa neta pra criar, ela me disse: 'mãe, ou você pega a menina, ou eu vou matar ela de fome'. Eu aceitei e agora estou nessa situação. Passo as noites acordada pensando, vou vivendo de pinguinho. Minha neta levanta de manhã e quer o pão dela, e eu me viro e me rebolo, porque na escola ela recebe, e em casa eu não posso dizer pra ela que não tem pão."
ParaisópolisDireito de imagemMARIANA SANCHES/BBC
Image captionMarinalva e a neta em busca de doações para garantir a alimentação da família
Marinalva não consegue emprego formal há quatro anos. Ela está muito longe de atingir a renda mínima familiar, estimada pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) em R$ 4.214, 62, para suprir sem carências as necessidades com alimentação, moradia, saúde, educação, vestuário, higiene, transporte, lazer e previdência dos quatro integrantes da casa. O valor, calculado em julho, equivale a quatro vezes o salário mínimo atual, de R$ 998.

Fome e obesidade nas escolas públicas

Na outra ponta do problema, professores e gestores escolares em diferentes partes do país confirmaram presenciar situações de fome à BBC News Brasil. A pedido dos profissionais, alguns entrevistados não serão identificados para não expor ou estigmatizar escolas e alunos.
"De fato há uma crise no país, e a percepção de que o aluno vai para a escola para comer é real, a gente é que aproveita a ida dele para ensinar", afirmou Maria Izabel Noronha, presidente do sindicato dos professores da rede estadual paulista (Apeoesp) e deputada estadual (PT-SP).
Na favela carioca do Complexo da Maré, a coordenadora do Projeto Uerê, Yvonne de Mello, que oferece refeições e aulas complementares a alunos de 6 a 18 anos, corrobora as palavras de Maria Izabel: "Neste ano e no ano passado, tenho recebido crianças que não conseguem aprender de maneira nenhuma. Não porque têm deficiência mental, mas porque não se alimentaram direito. Tive duas crianças no Uerê que desmaiaram. (A criança) começa a passar mal, a vomitar. Quando vai ver, não houve alimentação no dia anterior", relata.
Na periferia de Belém (PA), Lilia Melo, professora do ensino médio, conta que a colônia de férias da escola pública onde ensina ganhou adesões depois que passou a oferecer lanches.
"Esses dias, servi bolo com suco e vi um dos alunos levantando em direção a sua mochila. Depois percebi que ele deixou de comer para guardar para mais tarde. Perguntei por que, e ele não disse nada. Dei mais um pedaço e ele comeu. Na saída ele revelou: 'professora, tô levando pro meu irmão'. Ele tem um irmão de quatro anos. Então, há aqueles que levam 'para mais tarde', mas que no fundo querem garantir para seus familiares."
Iniciativa de 2010 em Belo Horizonte que ofereceu merenda a crianças durante as fériasDireito de imagemGERCOM BARREIRO/PREFEITURA DE BELO HORIZONTE
Image captionNove milhões de crianças brasileiras entre zero e 14 anos do Brasil vivem em situação de extrema pobreza; acima, iniciativa de 2010 em Belo Horizonte que ofereceu merenda a alunos durante as férias
Em escolas de São Paulo, a insegurança alimentar aparece mesmo durante o ano letivo, após poucos dias sem aula. "Percebo que na segunda-feira os alunos chegam com muita fome, não comeram o suficiente no fim de semana. O cardápio da segunda não é um dos preferidos deles, mas, ainda assim, as crianças comem mais do que a média dos outros dias", afirma o diretor de uma unidade de ensino na zonal sul.
Um professor da rede pública paulistana relembra o caso de uma aluna do período noturno que, sem comida em casa, trazia o filho menor para também se servir da merenda. "Com certeza algumas crianças no período de férias ficam desprovidas de uma refeição", conclui.
"Testemunhos de pessoas em áreas de vulnerabilidade social realmente indicam que (a merenda escolar) acaba sendo a garantia de consumo mínimo de alimentos durante o ano letivo para parte das crianças", explica à reportagem Elisabetta Recine, professora e coordenadora do Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutrição da Universidade de Brasília.
"Considerando as projeções de que a pobreza e extrema pobreza devem aumentar, as crianças devem sofrer as consequências disso."
Simultaneamente à fome, há outro problema a ser enfrentado: as crianças brasileiras estão cada vez mais obesas, incluindo as de baixa renda. O excesso de peso não revela uma alimentação de qualidade. É, na verdade, sinal do contrário disso - há um aumento expressivo do consumo de alimentos baratos e ultraprocessados, ricos em calorias mas pobres em nutrientes, aponta um estudo publicado neste mês pela Escola de Nutrição da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e o Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde da Fiocruz Bahia.
Com isso, uma parte ainda pequena, mas preocupante das crianças de baixa renda, enfrenta uma dupla carga: a desnutrição aliada à obesidade.
"A obesidade tem crescido e vem atingindo cada vez mais a população menos favorecida socioeconomicamente", diz em comunicado Natanael Silva, um dos autores da pesquisa.
"A insegurança alimentar transcende a quantidade de comida", agrega Maria Paula de Albuquerque, pediatra nutróloga do Centro de Recuperação e Educação Nutricional (Cren), entidade que atua em São Paulo.

Desnutrição atrapalha o ensino?

Merenda em escola brasiliense, em foto de 2017Direito de imagemANDRE BORGES/AGÊNCIA BRASÍLIA
Image captionEm conjunto habitacional do DF, há 'mães que não têm o que dar de comer aos filhos nas férias'; acima, merenda em escola brasiliense
Para evitar que alunos famintos tenham dificuldade de aprendizagem, algumas escolas instituem um rápido lanche antes do início das aulas, assim as crianças conseguem esperar pelas refeições sem perder o foco no conteúdo em classe.
Diferentes pesquisas acadêmicas indicam que o acúmulo de deficiências nutricionais - seja causado pela fome, seja pelo consumo de alimentos de baixa qualidade - pode causar impacto na habilidade de aprendizado infantil.
"É difícil afirmar que a nutrição seja a causa específica e única de problemas no desenvolvimento infantil, quando a criança sofre também com um sistema educacional que não é adequado e com a falta de estímulos. Mas é um entre tantos fatores desse ciclo de pobreza cruel", aponta Albuquerque.
Ela ressalta, porém, que esse ciclo pode ser rompido, permitindo que mesmo crianças em situação de extrema vulnerabilidade atinjam seu potencial. "Ainda que viva em situações adversas, a criança é um infinito de possibilidades. Seu cérebro tem enorme plasticidade para absorver novos hábitos. É importante, porém, fortalecer também quem cuida delas. Não conseguimos melhorar a condição de uma criança sem melhorar também a situação de sua família."
* Colaborou Amanda Rossi
Línea.
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