sexta-feira, 28 de junho de 2019

Moro, o justiceiro às escondidas, paladino às claras

Moro, o justiceiro às escondidas, paladino às claras
Editorial | "O que mais ele pode fazer?"
brasildefato26 de junho de 2019 11:00


"Moro aliou-se a uma das partes, a acusação, contra a defesa" / Foto: Marcelo Camargo / Agência Brasil
"O que mais ele pode fazer?”
A pergunta acima é de Glenn Greenwald. “Ele”, na frase é o ex-juiz Sérgio Moro. A resposta, parece, é “nada”. A não ser que o hoje ministro resolva usar a força bruta contra quem, toda semana, põe a nu mais um pedaço da sua indecorosa nudez. O que não evitará que a lama do submundo da Lava-Jato continue escorrendo dia após dia. “Moro mentiu e sabe que temos as provas”, diz o jornalista de The Intercept Brasil. Está explicado.
Moro está condenado a ser supliciado como supliciou centenas de pessoas, aí incluídos inocentes, culpados, suspeitos, acusados, condenados e suas famílias. É o peixe fisgado que se debate no anzol. Que o pescador puxa, sujeita e concede linha. Para novamente puxá-lo. Incansavelmente.
Sendo verdadeiras, como aparentam ser, as trocas de mensagens com procuradores da República no Telegram, Moro construiu uma farsa. Sob as luzes, posava de paladino da justiça. Nas sombras, trabalhava para sabotá-la. A Lava-Jato custou a devastação da indústria nacional, a explosão do desemprego, a criminalização da política, o colapso da soberania e a ascensão do neofascismo. Tudo com a complacência das cortes superiores e a cumplicidade da mídia corporativa.
Moro aliou-se a uma das partes, a acusação, contra a defesa. Como um árbitro que, numa partida de futebol, discutisse táticas, jogadas e a escalação de jogadores com o técnico de uma das equipes visando prejudicar o adversário. E sempre posando de imparcial. Nos estádios, isto se chama “roubo”. E todas as torcidas sabem muito bem – e gritam – o nome de quem age assim. E ele – como Moro – nada pode fazer.
Edição: Marcelo Ferreira
Este conteúdo foi originalmente publicado na versão impressa (Edição 16) do Brasil de Fato Rio Grande do Sul.

Diplomacia brasileira nota dez, em seis meses passa a ser nota zero

Diplomacia brasileira nota dez, em seis meses passa a ser nota zero
The Guardian: Diplomatas brasileiros estão "enojados" com Bolsonaro, que "pulveriza a política externa Brasil"
revistaforum25 de junho de 2019 08:41


Uma reportagem publicada nesta terça-feira (25) pelo jornal britânico The Guardian mostra que existe uma clara inconformidade dos diplomatas brasileiros com a política exterior impulsada pelo governo de Jair Bolsonaro e seu chanceler, Ernesto Araújo. Segundo o título da matéria, a postura do governo está “pulverizando a política externa do Brasil”.
O texto começa dizendo que a atuação do Itamaraty era “considerada há muito tempo uma das jóias da política latino-americana; um serviço estrangeiro perspicaz, confiável e altamente treinado que ajudou a tornar o Brasil um líder climático global e peso pesado de soft power”.
Porém, logo afirma que com “seis meses de presidência de Jair Bolsonaro, até diplomatas veteranos lutam para mascarar seu horror com a demolição do escritório estrangeiro do país”.
A reportagem cita um grupo de ex-embaixadores brasileiros que têm tentado atuar para evitar as consequências do que consideram erros da política externa brasileira na atual gestão, como a aliança como os ultranacionalistas de direita – como Donald Trump, Steve Bannon e o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán –, a postura de contrariar alguns parceiros de longa data do Oriente Médio, ao abraçar o Israel de Benjamin Netanyahu e ameaçar transferir a embaixada do Brasil para Jerusalém; ou de contrariar também a China, tomando lado na guerra comercial desse país com os Estados Unidos.
Além disso, os ex-embaixadores reclamam que o Brasil deveria ter uma posição de liderança mundial com respeito ao tema da crise climática, o que é impossível com a posição negacionista adotada tanto por Bolsonaro quanto por Araújo.
Entre os diplomatas ouvidos pela matéria, está Rubens Ricupero, ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos, que afirmou estar “enojado”, com a forma com que o atual governo vem conduzindo sua política externa. “O que eu ouço dos meus colegas que ainda estão ativos é que entre os funcionários diplomáticos há uma rejeição quase completa do ministro e da linha atual. Ele não é levado a sério dentro ou fora do ministério, porque representa uma espécie de seita”, disse Ricupero na matéria.
Outro que reclamou da atual política foi Roberto Abdenur, ex-embaixador na China, Alemanha e Estados Unidos, quem considera que “nossa atual política externa leva o Brasil de volta a um período da história em que o Brasil nem existia: a Idade Média”.
Por sua vez, Marcos Azambuja, ex-secretário geral do Itamaraty, também ouvido pelo The Guardian, disse que “houve uma mudança, e temo uma mudança para pior”. Ele lembra também que o Brasil sempre manteve ótimas relações com os Estados Unidos, mesmo durante o governo de Lula, mas que “tem cometido o erro de se aproximar demais do radicalismo de Trump e Steve Bannon”, reclama o ex-embaixador, que vê com preocupação, sobretudo, a influência de um dos filhos de Bolsonaro (Eduardo) sobre a política exterior brasileira.