terça-feira, 19 de novembro de 2019

O NOVO ESCRAVO BRASILEIRO

No Brasil pessoas que foram abduzidas pelo imediatismo e não têm a memória necessária para lidar com tantas informações disponíveis nas redes sociais e, daí, por acreditar em tudo o que leem e ouvem, não querem saber ou lembrar de que na Idade Média, na escravidão do século 19 e em outras épocas obscuras, a humanidade passou por situações muito mais cruéis e violentas do que hoje. Ignoram, por exemplo, as matanças ocorridas durante as duas grandes guerras mundiais, as tecnologias mortais utilizadas nos campos de concentração nazistas, como a câmara de gás, as bombas Napalm despejadas sobre o povo vietnamita e os bombardeios sobre Hiroshima e Nagasaki. Ignoram que na época das grandes navegações milhões de “indígenas” foram massacrados (mortos a tiros e machadadas) e que homens e mulheres livres foram escravizados e trazidos da África pelos invasores e colonizadores das Américas.

Uma nova escravidão no Brasil? (por Ricardo Almeida)
Foto: Algar Tech/ Divulgação
Ricardo Almeida (*)
Há quem diga que a “uberização” do trabalho é uma nova forma de escravidão. Algumas dessas pessoas, inclusive, afirmam com toda a convicção que a civilização está declinando e que as novas gerações estão caracterizadas por uma burrice absurda. Aqui no Brasil, muitas pessoas costumam culpar os pobres, ironizam, debocham e, às vezes, protestam nos bares, nas esquinas e/ou nas redes sociais. Diversas delas se dizem revolucionárias, mas na verdade são reféns de uma sociedade conservadora.
É comum encontrar pessoas desiludidas com a vida, que se dizem órfãs e permanecem perplexas diante dos ataques planejados e programados pela sociedade conservadora, com a ajuda das forças do capital. Boa parte delas não compreende a alienação humana e se contenta em protestar no pequeno espaço que lhes foi reservado para a realização de suas frágeis manifestações… O jovem Marx diria (no prefácio do seu livro A Ideologia Alemã) que são idealistas, pois “fazem o seu protesto e depois morrem”.
Na verdade, são manifestações de uma cultura maniqueísta, nada sensível e muito menos dialética, que se baseiam na repetição das experiências passadas para tirar conclusões, e que acabam criando o mal estar que se propaga nas comunidades. Essas pessoas oscilam entre uma crença messiânica e a busca por soluções imediatas, individuais e egoístas, e os seus argumentos são quase sempre fatalistas, pois não compreendem as contradições e o dinamismo da complexa realidade em que vivemos.
Grosso modo, são pessoas que foram abduzidas pelo imediatismo e não têm a memória necessária para lidar com tantas informações disponíveis nas redes sociais. Por acreditar em tudo o que leem e ouvem, não lembram de que na Idade Média, na escravidão do século 19 e em outras épocas obscuras, a humanidade passou por situações muito mais cruéis e violentas do que hoje. Ignoram, por exemplo, as matanças ocorridas durante as duas grandes guerras mundiais, as tecnologias mortais utilizadas nos campos de concentração nazistas, como a câmara de gás, as bombas Napalm despejadas sobre o povo vietnamita e os bombardeios sobre Hiroshima e Nagasaki. Ignoram que na época das grandes navegações milhões de “indígenas” foram massacrados (mortos a tiros e machadadas) e que homens e mulheres livres foram escravizados e trazidos da África pelos invasores e colonizadores das Américas.
O fato é que atualmente muitas pessoas se tornaram dependentes das curtidas e já não reconhecem que estão viciadas em responder aos estímulos, aos eventos e às sensações provocados pelos robôs e/ou algoritmos de origens diversas. Deste modo, a memória passou a fazer parte do esquecimento, e as amizades se transformaram em números (ou em lampejos) que transitam nas nossas timelines.  E o pior é que essa cultura está sendo transmitida para as novas gerações sem fazer barulho, pois se propaga silenciosamente.
Se for correto dizer que a nova sociedade começa a existir ainda na velha sociedade, deveríamos estar dispostos a dialogar com pessoas que não pertencem às nossas bolhas, levando em conta a importância estratégica dos povos tradicionais e das novas categorias que surgiram… Pouco adianta elogiar as rebeliões da juventude e do povo Mapuche, no Chile, das comunidades indígenas y campesinas na Bolívia e no Equador se não lembramos sequer o nome de quem compartilhou mensagens conosco na semana passada.
Precisamos aprender com as experiências dos povos indígenas e de matriz africana no Brasil, que se organizaram em “conselhos” dos povos e se aquilombaram para manter a gestão coletiva dos territórios, e também para celebrar a cultura dos seus ancestrais, apesar dos preconceitos e das discriminações. É imprescindível assimilar, por exemplo, a filosofia ubuntu (“sou o que sou pelo que nós somos”) e trabalhar a cultura no seu sentido mais amplo, antropológico, para além das pessoas letradas e contra o reducionismo que quer transformar tudo apenas em disputas institucionais.
Nesse sentido, a democracia direta e participativa deve ser vista como um princípio inegociável, assim como a solidariedade e o reconhecimento da nossa diversidade cultural. Ou seja, é essencial a adoção de uma práxis ̶ consciência prática, histórica e sensível ̶ que se caracterize pelo reconhecimento dos Outros, e tratá-los como uma parte de nós mesmos, sem deixar de identificar as nossas singularidades políticas, econômicas e culturais.
Ainda bem que muita gente já reconhece que houve um golpe de novo tipo no país, que as empresas multinacionais estão atrás de mão de obra barata e das nossas riquezas, que os governos Temer e Bolsonaro representam os interesses das elites econômicas do capital nacional e internacional e que Lula foi preso injustamente. No entanto, poucas pessoas lembram que as organizações populares estavam esvaziadas e que as forças de esquerda disputavam entre si até pouco tempo atrás. Algumas pessoas chegaram a afirmar que a escuridão ia durar mais de 30 anos e falavam como se fossem porta-vozes do povo. Para complicar, contraditoriamente, com as importantes revelações do The Intercept Brasil, a maioria dessas pessoas abandonou as incipientes manifestações de rua e começou a se contentar com o novo momento da imprensa digital brasileira.
Ao mesmo tempo, passados três anos e meio do golpe, o povo está percebendo que o trabalho foi terceirizado, que os salários estão cada vez mais minguados, que a aposentadoria se tornou uma peça de ficção, e que uma nova proletarização está em curso, acompanhada pelo surgimento de novas categorias de trabalhadores e trabalhadoras. Se as forças de esquerda brasileira não repensarem as suas teorias e as suas práticas, vamos continuar acreditando que a formação política que ocorreu nos séculos 19 e 20, baseadas prioritariamente no operariado chão-de-fábrica, conseguirá dialogar com as novas demandas urbanas, rurais, marítimas e florestais.
Os movimentos sociais brasileiros precisam ganhar musculatura para realizar manifestações que ultrapassem algumas horas de protestos. Ainda falta unificar as inúmeras pautas específicas, como a luta contra o arrocho salarial, as condições precárias de trabalho, o déficit habitacional, o desmantelamento dos serviços públicos, a falta de leitos hospitalares, a pobreza extrema, além de pautar as questões de mobilidade urbana, da ocupação e uso do solo, do acesso à terra e a disponibilidade de créditos público para a produção, da segurança alimentar, da preservação do meio ambiente, das simbologias culturais, juntamente com o combate sem trégua aos diferentes tipos de discriminação racial, religiosa, de gênero, cultural etc até construir uma consciência política mais ampla possível.
Este novo período de proletarização do povo brasileiro está fazendo com que as pessoas não consigam atender às necessidades mínimas das suas famílias, planejar o futuro dos seus filhos (prole) e pagar a prestação da tão sonhada casa própria. Estamos entrando em uma nova fase do capitalismo internacional, em que os sindicatos estão sendo enfraquecidos, os empregos se tornaram instáveis, as pessoas estão sendo obrigadas a trabalhar mais horas por dia para ganhar menos e perderam direitos em relação ao seguro desemprego, ao pagamento de horas extras e às férias remuneradas, por exemplo. É óbvio que essa precarização do trabalho neste cenário de economia quebrada vai gerar um desespero maior nas pessoas, mas nada disso garante que elas irão se revoltar, pois isso dependerá de organizações que sejam capazes de promover uma profunda mudança cultural e política nas cidades, nos estados e no país.
Neste cenário, os empresários nacionais e, principalmente, os internacionais estão vencendo a batalha econômica, política e cultural no Brasil e, por isso mesmo, é vital compreender que a nova escravidão dos homens e mulheres está muito mais nas ilusões que as pessoas criam sobre si mesmas do que nas relações de trabalho (programadores TIC, motoristas de Uber e atendentes de telemarketing, por exemplo) provocadas pela revolução digital tecnológica. É bom lembrar que os homens e mulheres escravizados não tinham sequer o direito de se revoltar contra os opressores e que agora, apesar das injustiças, somos livres para construir organizações de novo tipo e semear os nossos melhores sonhos.
O nosso passado escravagista e o racismo contemporâneo não podem ser confundidos com uma dependência digital involuntária ou por essa nova fase de exploração capitalista, sob pena de não reconhecermos a história e as heranças culturais do povo brasileiro. Lembrem que nós somente existimos porque somos fruto de um processo de multiculturalidades e a interculturalidades que se formaram por meio de diferentes migrações, revoltas, saqueios, vitórias e derrotas. Por isso, necessitamos fazer as pazes com o passado de lutas e de esperanças e reivindicar as forças de Zumbi dos Palmares, de Sepé Tiarajú e de tantos brasileiros que enfrentaram coletivamente os sistemas cruéis de exploração.
Portanto, além de reconhecer as diversas culturas populares e as mudanças que ocorreram na estrutura de classes do sistema capitalista mundial, precisamos nos proteger das diferentes táticas híbridas que as empresas transnacionais utilizam para desestabilizar e/ou derrubar governos mundo afora. O nosso desafio passa necessariamente pela aproximação das atividades digitais às presenciais, e vice-versa, até envolver as diferentes comunidades culturais e os novos coletivos de trabalhadores e trabalhadoras para controlar os seus destinos e tomar decisões políticas de forma horizontal e democrática.
Enfim, se alguém ainda insistir que estamos vivendo um novo período de escravidão no Brasil, temos que chamar esse alguém para se aquilombar (kilombo, na língua bantu, significa construir um “acampamento de guerreiros e guerreiras”) para lutar junto com a sua categoria e/ou comunidade, pois a libertação de um povo requer a iniciativa de homens e mulheres livres de amarras  ̶  mentais, digitais etc ̶, sejam negros (as), brancos (as), vermelhos (as) e/ou amarelo (as). 
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