domingo, 26 de maio de 2019

O tamanho do crime da ignorância


Paulo Freire e Danilo Gentili: política, educação e a defesa da ignorância. Bolsonaro pretende mudar o patrono da educação brasileira, título concedido ao educador e filósofo Paulo Freire.ª O mais impressionante são as pessoas que concordam com a ideia, chegando a sentir ódio do renomado educador, sem, ao menos, conhecê-lo! Um exemplo emblemático é o do famoso comediante Danilo Gentili. Em entrevista ao programa Provocações, Gentili foi questionado sobre sua crítica ao autor, ao que o humorista disse: “eu não gosto das pessoas que defendem Paulo Freire”. Confuso, complementou afirmando que leu “algumas coisas” do autor e que ele parece um “estelionatário”, que diz coisas sem sentido, como “Eva viu a uva”. Segue o link da impressionante entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=f1idmxlscoE Quem realmente teve a oportunidade de ler Paulo Freire sabe que, ao contrário do que pensa Gentili, ele critica as tradicionais cartilhas, que trazem repetições sem sentido, como “Eva viu a uva” ou “A ave é do Ivo”, e propõe, para o trabalho de alfabetização, que seja feito, inicialmente, um levantamento do universo vocabular dos “educandos”, para que sejam escolhidas as “palavras geradoras”. Tais palavras são “constituídas pelos vocábulos mais carregados de certa emoção, pelas palavras típicas do povo. Trata-se de vocábulos ligados à sua experiência existencial” (FREIRE, 2001, p. 73). Paulo Freire foi o grande responsável pela experiência de Angicos, na qual um grupo de 380 adultos foi submetido ao seu Método, no período de 18 de janeiro a 02 de abril de 1963, totalizando apenas 40 horas/aula, sendo que 300 conseguiram ser alfabetizados. A experiência foi acompanhada por observadores, especialistas em educação e jornalistas do Brasil e do exterior. Estavam presentes jornais como New York Times e Le Monde. Como escreve Germano (1997, p. 391), “começa aí o périplo de Freire pelo mundo, tendo percorrido mais de 50 países, lecionado nos mais importantes centros universitários internacionais, como a Universidade de Harvard, e aplicado o seu método de alfabetização em nações da Ásia, da África e da América Latina. A sua obra acabou, portanto, por assumir dimensões universais. Assim, por exemplo, Pedagogia do oprimido foi traduzida para 17 línguas, tendo vendido cerca de meio milhão de exemplares. Ao lado disso, tornou-se doutor honoris causa por 28 universidades e 26 centros de pesquisas em educação recebem o seu nome em países como Brasil, Itália, Chile, Bélgica e Estados Unidos”. Pedagogia do Oprimido já foi a terceira obra mais citada em trabalhos da área de humanas, no mundo!ᵇ Além disso, é o único livro brasileiro a aparecer na lista dos 100 títulos mais pedidos pelas universidades de língua inglesa, consideradas pelo projeto Open Syllabus, que abrangeu estudos de universidades dos EUA, Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia.ᶜ Danilo Gentili é um exemplo daqueles que combatem um autor, ou ideologia, não por conhecimento de causa, mas pela falta de conhecimento, o que constitui uma espécie de defesa da ignorância. Afinal, como é possível discordar de um autor sem ao menos conhecê-lo? O mais assustador é ver a quantidade de pessoas nas redes sociais que acham isso absolutamente normal. Ao menos, o comediante demonstrou que abordar questões complexas, envolvendo, por exemplo, política ou educação, sem um mínimo de conhecimento acadêmico/científico, representa um risco enorme de dizer bobagens. Se gostou deixe seu like, compartilhe e curta a página A Miséria da Democracia! 👍 Referências: FREIRE, P. Educação e mudança. 24 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2001. GERMANO, J. W. As quarenta horas de Angicos, Educação & Sociedade, ano XVIII, n. 59, agosto de 1997. ª. https://oglobo.globo.com/sociedade/bolsonaro-diz-que-vai-mudar-patrono-da-educacao-brasileira-titulo-conferido-paulo-freire-23630439 ᵇ. https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/06/04/Paulo-Freire-%C3%A9-o-terceiro-pensador-mais-citado-em-trabalhos-pelo-mundo ᶜ.http://g1.globo.com/educacao/noticia/2016/02/so-um-livro-brasileiro-entra-no-top-100-de-universidades-de-lingua-inglesa.html

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