quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Fenômeno devastador previsto para 2019

Fenômeno devastador previsto para 2019







Inundações provocadas pelo fenômeno El Niño em Palmira, Colômbia, 1 de dezembro de 2010

Fenômeno devastador previsto para 2019 poderá atingir o Brasil


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AP Photo / Christian Escobar Mora

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS FRAUDADAS

ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS FRAUDADAS

O estrupador e...

O estrupador e...
A HISTÓRIA ESTUPRADA DO BRASIL

Corre mata adentro, cansada, ofegante, vencida.
É o bandeirante desbravador estuprando a índia. E é ela a selvagem, claro!
Tapa a boca, escraviza a alma. Chora, vendida.
É o senhor da casa grande, proprietário de carne, estuprando a negra na senzala. E é ela a escória, claro!
É o militar patriota estuprando a comunista subversiva nos porões da ditadura. E é ela a ameaça ao país, claro!
É o policial vestido de hipocrisia que atende a mulher violentada agora a pouco, perguntando que roupa ela usava na hora do ocorrido. E é ela que se veste errado, claro!
É o pai de família que faz sexo com a esposa indisposta. Mas isso não é estupro, é só sexo sem consentimento mútuo, claro!
É o macho alfa que estupra corretivamente a lésbica "mal comida". E é ela a doente que precisa de cura, claro!
É o aluno de medicina, estudante da “melhor universidade da América latina”, que estupra a caloura bêbada. E é a denúncia dela que mancha o nome da Universidade, claro!
É o político defensor dos “bons costumes” que só não estupra a deputada porque ela 'não merece'. Ufa, pelo menos alguém sensato nessa história violentada do Brasil.

domingo, 16 de dezembro de 2018

A Mídia em Novo Golpe

A Mídia em Novo Golpe
Novo golpe da mídia
O caminho já se antevê. O motorista vai pagar o pato, mas o caso não vai abalar o presidente, que apenas vai ter em mente com quem se meteu / Foto: Tania Rego/Agência Brasil
Partidos e imprensa querem apenas lembrar quem dá as cartas
É preciso louvar quem tem competência. A mídia comercial familiar brasileira, que agora escolheu para si o sobrenome “profissional”, ajudou a conceber o golpe, foi protagonista destacada, atuou como instrumento de manipulação, resumiu o mundo à defesa de valores neoliberais e criminalizou os movimentos populares. Ajudou a fraturar a democracia e a eleger um fascista para a presidência da República, mesmo que para isso banisse de seu vocabulário político o fascismo ou mesmo a extrema direita. Fez o dever de casa.
Consumado o serviço, antes mesmo de receber seu pagamento, essa mesma mídia se viu acossada pelo mito que ajudou a eleger, que do alto do misto de ignorância e arrogância achou de entender que não deve nada a ninguém, que os tempos que correm não precisam de “intermediação”. Que, na melhor tradição populista de direita, fala diretamente com o povo. Deu uma banana para os políticos e para a imprensa. A reação não tardou. A ética da máfia é cortante e, esta sim, sem intermediação: perdoa-se tudo, menos a deslealdade à família e as dívidas tácitas.
Os partidos políticos fisiológicos, depois de um conveniente período de silêncio, já começam a colocar as asinhas de fora. Ficaram sem ministérios, mas no beija-mão diário ao comitê de transição vão deixando nas entrelinhas sua mensagem: ruim com eles, pior sem eles. A estratégia da negociação por bancadas em vez de siglas não garante voto no plenário. A pressão popular, se houver, no início do mandato terá muito tempo para ser absorvida até novas eleições. Para mostrar que o jogo não está jogado, soltam pequenas pautas-bomba para marcar território.
A imprensa também começa a reagir depois da lua-de-mel com o presidente eleito. Em matéria de jornalismo, lua-de-mel não significa apoio, mas leniência, boa vontade, amnésia seletiva. Foi o que Bolsonaro ganhou dos autoproclamados profissionais. Seus ataques à democracia foram relevados como bizarrices morais em nome de valores mais importantes no campo econômico. Engoliu-se o medievalismo de costumes em favor da pauta financeira. A teocracia conservadora foi tolerada para calçar a tecnocracia ultraliberal. De um lado Salém, de outro Chicago.
No entanto, o capitão não parece ter entendido as regras e soltou os cachorros contra a mídia, inclusive com ameaças explícitas de cortar a publicidade oficial. Escolheu alguns veículos para mandar mensagens para todos. Como no caso dos políticos preteridos pela jactância de quem julga perorar diretamente ao coração do povo, a reação das empresas de comunicação não demorou. A sabedoria da mídia foi não contestar o presidente, mas atacá-lo no terreno em que construiu seu templo de Salomão: a corrupção. O caso do motorista-militar-laranja do filho de Bolsonaro era tudo que precisava.
Há muitos elementos gravíssimos para contestar o presidente eleito, muitos deles de impacto tão severo que começam a repercutir internacionalmente antes mesmo da posse. A sequência de declarações estúpidas em política externa, direitos humanos, educação, saúde e trabalho seriam suficientes para descreditar o futuro governo Bolsonaro. O risco à democracia é real. A ameaça de fascismo é patente. O militarismo deixou de ser uma sombra para se afigurar uma promessa. A violência já apresenta suas armas na morte de trabalhadores sem-terra.
Em várias frentes há um acúmulo de prejuízos profundos, seja em termos econômicos, com a ameaça de rompimento de acordos e tratados, seja em valores de civilização, como direitos das mulheres, dos negros e das minorias. Ao relegar a política pública indigenista a uma pastora obscurantista, o governo recupera o passado mais torpe do setor, quando Igreja e Exército dividiam a tarefa de matar povos e culturas em favor de uma ortodoxia compósita de fé intolerante e a violência. Com a soma recente dos interesses econômicos do agronegócio e das mineradoras, o recuo civilizacional é ainda mais destrutivo.
Mas são causas que não interessam à mídia hegemônica. No limite, servem a ela. Por isso, a reação tem se dado a partir do caso revelado pelas movimentações financeiras do militar aposentado que guiava o carro do então deputado estadual Flávio Bolsonaro. Agente cobrador de pedágio de nomeados para cargos de confiança do gabinete, que alimentava, entre outras contas, a da mulher do presidente eleito, Fabrício Queiroz se tornou a bola da vez. É um caso simples de extorsão, com todos os dados registrados por uma repartição pública. Com sua expertise em tratar de casos de corrupção, a imprensa mostra suas garras, com seu estilo peculiar.
O caminho esperado já se antevê. O motorista, que tomou chá de sumiço, vai pagar o pato. No máximo o “garoto” vai receber uma reprimenda, mas o caso não vai chegar a abalar o presidente, que apenas vai ter em mente a partir de agora com quem se meteu. Alguns colunistas sempre dóceis ao que de pior o capitão reformado manifestou em sua trajetória, que a tudo relevaram em nome do respeito devido às instituições (o que nunca fizeram quando os nomes eram de outro partido), se sentem livres para cobranças de araque. Fingem indignação e alfinetam o presidente em editoriais. Chegam a cobrar de Moro, agora ministro da Justiça e titular das ações do Coaf, de onde vazou a lambança, uma atitude republicana e juridicamente equilibrada. De quem? De Moro?
O mais grave, no entanto, é que a pauta da corrupção parece ser a única capaz de mobilizar minimamente as pessoas. Até mesmo a oposição e os movimentos populares. Depois de um recuo inexplicável, de uma atitude de letargia que impediu a manifestação firme de repúdio a atitudes graves, como a extinção de ministérios ligados a direitos e ataque a acordos celebrados depois de anos de trabalho diplomático, entre outros, as forças populares ainda não assumiram a linha de frente de combate e resistência. Há uma atmosfera de preservação, quase de temor e luta pela sobrevivência, que precisa ser revertida em nome de ações mais firmes.
Pegar carona nos interesses moralistas da imprensa – ainda que se trate de uma bandalheira condenável – como se fosse o foco prioritário da política brasileira, é vitaminar o estilo achacador que fez história na imprensa brasileira. É preciso dar a medida exata às coisas. É a democracia brasileira que está em jogo, não o clã do presidente eleito. A imprensa faz seu jogo de sobrevivência, aproveita para recuperar parte da credibilidade perdida e dá indicação de até onde pode ir. Não vai cruzar a linha. Golpistas são sempre golpistas. No fim das contas, partidos fisiológicos e imprensa monopolista querem apenas lembrar quem dá as cartas.
Edição: Joana Tavares

Fonte: https://www.topbuzz.com/a/6634898867726844421?user_id=6629035091002032134&language=pt&region=br&app_id=1197&impr_id=6635049856601688326&gid=6634894681996640521&c=email 

sábado, 15 de dezembro de 2018

JAIR COM SAUDADES

Que saudade hein Jair?

 

Por Arthur Andrade

 

 

Que saudade, hein Jair?

 

Daquele tempo em que você xingava sem reservas, ameaçava mulheres, defendia torturas, atacava negros, gays, índios… e nada acontecia. Tá bom… acontecia sim, uma frágil indignação da platéia que você amava indignar.

 

Saudade do tempo em que você era o escroto folclórico, o insano inconseqüente, o raivoso brincalhão e o mito para os seus iguais. Você era o mito!!

 

Saudade do tempo em que você pedia impeachment aos berros e com isso se sentia dono do mundo, o inatingível, o guerreiro sedento por guerra.

 

Do tempo em que era o discípulo homenageando o herói torturador e assim ganhava, no máximo, matérias assustadas. E você amava assustar.

 

Saudade do tempo em que você, do baixo clero, podia ser o ladrão invisível, o corrupto disfarçado, a reserva imoral, a mentira deslavada. E nada acontecia. Ah quanta saudade, hein Jair!!

 

Saudade do tempo em que podia roubar sem ninguém ver, empregar fantasmas ao bel prazer e distribuir dinheiro público com a família sem ninguém perceber. Você era a insignificância produtiva.

 

Saudade do início do estrelato. Saudade dos gestos de armas. Saudade de ser carregado. Saudade de provocar petistas, ciristas, comunistas, socialistas e até capitalistas. Sim, você já foi nacionalista, embora não conseguisse cantar o Hino Nacional.

 

Saudade, saudade de honrar a bandeira americana e receber tapinhas de “meu querido escravo”.

 

E faz tão pouco tempo, não é?

 

Agora você olha pro lado e vê uma traíra. Olha pra trás e vê uma arma engatilhada. Olha pra frente e vê o precipício.

 

Agora você está diplomado presidente do maior país da América Latina. Um gigante que enxerga você como a formiga miúda e você olha pro gigante como uma célula intestinal.

 

Agora você nem tem mais família. A família Bolsonaro virou sinônimo de falcatrua. Então, Jair, isola a família.

 

Sua família oficial vai vigiar seus passos com chicotes de 4 ou 5 estrelas. Sua família oficial vai massacrar seus dias e noites com tarefas oficiais que você odeia, odeia, odeia.

 

Trabalhar, Jair, nunca foi seu forte.

 

Agora você vê os filhos fugirem das redes com medo do povo. Agora você tem medo até do seu povo. E medo de abrir a boca, quem diria, você que era um boquirroto incansável.

 

Seu silêncio durante o Hino Nacional foi esse medo da boca, não foi Jair? Abrir a boca é um perigo, disseram a você. E você tem saudade até disso, bons tempos da boca aberta sem medo da língua.

 

E comer porcarias? Nunca mais, Jair. Beber água, tomar suco de caixa, uma pinga, nunca mais.

 

Porque seu medo chegou à comida. E comida é boca!

 

Você precisa de provadores. Você precisa de seguranças, 12 mil. Você precisa de vigilantes, você precisa de sono. Você precisa sumir. Dá vontade de sumir, não dá Jair?

 


E pensar que tudo o que você queria era brincar de super herói.

As três pernas do trono

As três pernas do trono
Dinheiro, religião, sexo. As três pernas do trono do diabo


“Quando o diabo decide agir, ele comanda a partir de um trono que possui três pernas: dinheiro, religião e sexo”, dizia minha avó Anna. Pouco tenho a acrescentar à antiga sabedoria carregada por aquela italiana do Veneto, mãe de minha mãe. A não ser, talvez, dizer que um dos nomes do diabo é Poder. João de Deus se esqueceu disso, e deu no que deu.
Por: Luis Pellegrini
Fonte: Site www.luispellegrini.com.br
Poder, como todas as coisas que contam, é moeda de duas faces: uma voltada para a luz, a outra para a escuridão. Nos identificar com uma ou com outra depende exclusivamente do uso que fazemos do poder que nos foi atribuído. Se usarmos nosso poder de maneira não egoísta, honesta, despojada, inteiramente voltada para o bem comum, ele se transformará em luz que ilumina. Caso contrário, como sempre acontece mais cedo ou mais tarde, ele se tornará motor da pior magia negra, aquela que conduz ao reino das trevas.
Essa visão do mundo e da própria existência humana não deriva, como alguns poderão pensar, de algum moralismo banal. Emerge, bem diferentemente, do núcleo essencial do sistema de ideias que deu origem à nossa civilização: a filosofia da Grécia Antiga.
Para os antigos gregos, existia apenas uma falha, um erro, um equívoco fundamental e irremissível ao qual davam o nome de hubris: a arrogância, o descomedimento, a perda da consciência de limites. Incorrer na falha de hubris atiça a cólera dos deuses e condena o arrogante à danação eterna. Só aos deuses, entidades absolutas, é permitido ir além dos próprios limites. O homem, ser frágil e escravo do relativo, precisa existir dentro de medidas precisas, nem permanecer aquém nem ir além delas. Para aqueles homens e mulheres que viveram na Grécia Antiga, quando um ser humano se arroga o direito de agir, dizer e pensar fora da medida justa – fora do métron, para usar o termo original – ele cria o caos e, ao mesmo tempo, desencadeia a força de Nêmesis, o princípio restaurador da ordem. Nêmesis, cerne do poder que mantem o universo organizado, dissolve e destrói tudo aquilo que representa uma ameaça à ordem como Princípio Universal.
Tais considerações, creio eu, podem ser oportunas no momento em que o país é sacudido por mais um escândalo de Poder: as revelações sobre a incontinência sexual do médium João de Deus. O que mais, além da perda da consciência de limites, levaria um homem tido como santo benfeitor por milhares de pessoas a cometer um número tão grande de abusos sexuais? Libido é uma benção que nos foi presenteada pela generosidade da Mãe Natureza, sem distinção de raça, idade, gênero, credo, condição social ou preferencia sexual. Mas, como tudo o mais, quando o libidinoso perde a medida justa, ele se transforma em tarado, e esse estigma dificilmente deixará de acompanhá-lo até o final da sua vida. É a maldição da hubris.
Por interesse profissional e dever profissional, já que sou jornalista mais ou menos especializado, conheci e tive contato, ao longo da minha vida, com vários “gurus”, “mestres”, “instrutores espirituais”, “sacerdotes”, “terapeutas” e outros do gênero que se oferecem no mundo como guias e condutores dos complicados processos pessoais de autoconhecimento e do despertar interno desse tipo particular de estado de consciência que costumamos chamar de “luz espiritual”. Aprendi muito com todos eles e devo reconhecer – com gratidão – que muito do que hoje sou se deve à luz dos seus ensinamentos. Porém, da mesma forma – já que não sou cego, nem mudo ou surdo, e muito menos tonto e desavisado – percebi que vários desses professores resvalavam com facilidade no terreno de areias movediças do fanatismo religioso, da ganância pelo dinheiro e a posse de bens materiais e, sobretudo, do sexo. Exatamente as três pernas do trono do Poder.
Encontrei, também – felizmente – gurus que conseguiam se manter fora do alcance das garras de Nêmesis. Mas para nenhum deles isso era tarefa fácil. Eram obrigados a manter uma vigilância constante, às vezes exaustiva contra as tentações que estão sempre à espreita, prontas a induzi-los a esquecer o padrão da medida justa. Prontas a torna-los escravos da Lei de Gérson, aquela que afirma ser correto levar sempre vantagem em tudo. Prontas a nos convencer de que temos, sim, o direito de achar que somos o centro do mundo e que tudo o mais – inclusive o mundo e as demais pessoas – existem para o nosso deleite e serviço. E se você achar que essas carapuças cabem perfeitamente na cabeça de certos homens e mulheres do Poder, políticos e assemelhados, pode estar certo de que não se trata de simples coincidência.
João de Deus pagará agora o preço dos seus excessos. E essa derrocada levará de roldão a maior parte das coisas boas e acertadas que ele certamente fez. Que sua tragédia nos sirva de exemplo.

TUDO É SEM SER O QUE É!!

TUDO É SEM SER O QUE É!!





COLUNA 

Bolsonaro existe? Foi esfaqueado mesmo, ou é tudo ‘fake news’?

Hoje, pela primeira vez, a crônica cotidiana, a história que estamos vivendo, não é narrada exclusivamente pelo poder, como no passado



Jair Bolsonaro
Jair Bolsonaro durante visita ao Tribunal Superior do Trabalho.  AFP



Talvez a História nunca tenha estado tão insegura entre a verdade e a mentira. Nunca, nem mesmo o presente foi posto tanto em dúvida. Será que descobrimos, de repente, que a verdade no estado puro não existe e que tudo pode ser verdadeiro e falso ao mesmo tempo?
Vejamos o Brasil. Tudo parece ser uma coisa e o contrário. Há até quem chegue a perguntar a si mesmo se o capitão Jair Bolsonaro, que conseguiu 57 milhões de votos nas urnas não se sabe como, existe realmente ou é uma miragem. Coloca-se em dúvida até mesmo que tenha sido esfaqueado.
Em um mundo no qual até intelectuais chegam a pôr em dúvida a existência do Holocausto judeu, com um saldo seis milhões de pessoas — homens, mulheres e crianças — exterminadas nos campos de concentração, podemos ter a impressão de que a verdade não existe e não será possível conhecê-la.
Isso é positivo ou negativo? É verdade que dessa forma todos nos sentimos mais vulneráveis e inseguros ao não ser capazes de distinguir entre verdade e mentira. E, ao mesmo tempo, talvez tenhamos de nos acostumar a conviver em uma realidade mais complexa do que pensávamos, que nos obriga a estar mais vigilantes, já que os limites entre realidade e aparência, entre notícia e fake news, estão ficando cada vez mais tornam-se se fazem cada dia mais tênues e indefinidos.
O que sentimos hoje como uma inquietação, talvez porque estivemos séculos sentados tranquilos sobre nossas certezas, pode acabar sendo uma importante purificação. Durante séculos vivemos alimentados pelos dogmas que poder civil ou religioso nos impôs. Tudo era, sem que precisássemos nos preocupar em descobrir, branco ou preto, verdadeiro ou falso, bom ou mau, justo ou injusto. Era assim mesmo, ou será que tínhamos nos acostumado a conviver com a verdade imposta, o que nos dispensava da dúvida? As coisas eram como eram, porque sempre tinham nos ensinado assim. Teria dado muito trabalho colocá-las em discussão.
Sempre acreditamos nos livros de História, como se fossem textos sagrados que não pudessem ser discutidos. E se, na verdade, os livros de História nos quais bebemos durante séculos fossem, em sua maioria, uma grande fake news? Nós nos esquecemos de que, em grande parte, a História foi escrita pelos vencedores, nunca pelos perdedores. Como teriam escrito os mesmos fatos aqueles que perderam as guerras, as vítimas, os analfabetos que não podiam escrevê-la, mas que a sofreram em sua pele?

É melhor não sofrer tanto e aprender a conviver em um mundo que já não é nem será aquele em que nossos pais viveram

Será que estaria a salvo da contaminação das fake news o grande livro da Humanidade, a Bíblia, escrita no espaço de mil anos por autores desconhecidos, que as Igrejas cristãs consideram ter sido inspirada por Deus e, portanto, verdadeira? E se descobríssemos que historicamente a Bíblia não resistiria a uma crítica séria? Ou será que alguém pode acreditar que existiram seus personagens mais famosos, como Abraão, Noé, Matusalém e Moisés?
E analisando apenas os quatro evangelhos canônicos que os católicos consideram inspirados por Deus, quanto neles há de histórico e quanto há de catequese religiosa ou política? Qual é a versão verdadeira sobre o julgamento e condenação à morte do profeta Jesus se entre as versões dos quatro evangelistas há inúmeras diferenças bem visíveis? Qual é a figura real de Jesus, a que é apresentada aos judeus da época, cuja morte é totalmente atribuída aos romanos, ou aquela narrada aos gentios e pagãos, em que se carrega nas tintas contra os judeus e fariseus?
Talvez a inquietude que todos sentimos hoje, na nova era em que a Humanidade entrou ao não saber se estamos lidando com notícias verdadeiras ou falsas nem o quanto isso pode condicionar a convivência política e social, se deva, no fim das contas, a algo positivo, embora seja preciso se recompor e recuperar a serenidade para entender que vivemos em um mar agitado, no qual é difícil distinguir um peixe vivo de um pedaço de plástico.
Essa positividade que alguns pensadores começam a farejar na situação angustiante que vivemos, na qual verdade e mentira convivem abraçadas, talvez nasça de algo novo e ao mesmo tempo positivo que não existia no passado. Hoje, pela primeira vez, a crônica cotidiana, a história que estamos vivendo, não é narrada exclusivamente pelo poder, como no passado. Não é narrada pelos que se consideravam donos da verdade e a impunham com a espada na mão, se fosse necessário. Todos os poderes, civis e religiosos, fizeram isso. Hoje, a crônica começa a ser escrita e filtrada também pelos de baixo, pela periferia, por aqueles que não têm mais poder do que o oferecido pelas redes sociais.
Isso sem dúvida levará, como já está ocorrendo, a crises de identidade e à quebra de velhos paradigmas de segurança, como o que os dogmas e as verdades oficiais ofereciam antes. Era tudo mais cômodo e causava menos angústia. Mas não éramos também mais escravos do pensamento único do poder? O fato de não termos de nos preocupar em saber se o que nos ofereciam como história era verdade ou não, ou se era só a verdade de uma parte e não da outra, dava-nos tranquilidade. Hoje, estamos no meio de um ciclone que parece arrastar tudo e não é estranho que nos sintamos inseguros, irritados e até com medo.
Tão inseguros que ainda há quem não saiba realmente quem é Bolsonaro ou se ele é uma invenção, ou se os médicos de dois hospitais de prestígio inventaram a história da facada. E Lula? E Moro? Como se escreverá amanhã a história atual do Brasil? Será que os historiadores de hoje conseguirão nos contar no futuro a verdade ou a fake news sobre o que está vivendo uma sociedade que se sente presa entre a verdade e o boato, entre o que ela gostaria que fosse e o que efetivamente é a realidade — que, afinal, tem possivelmente tem tantas caras e nuances quanto as cores do arco-íris.
É melhor não sofrer tanto e aprender a conviver em um mundo que já não é nem será aquele em que nossos pais viveram. E essa sim é uma verdade. Se opressora ou libertadora, só poderemos saber quando baixar a poeira dessa agitação em torno de verdade e falsidade ou de meias verdades e meias mentiras. O famoso filósofo espanhol Fernando Savater me lembrava de que “se o mundo parasse de mentir, acabaria despedaçado em poucos dias”. Às vezes, uma meia verdade pode salvar o mundo de uma catástrofe. Até a Igreja católica, com seus séculos de experiência em conduzir o poder, cunhou as famosas “mentiras piedosas”.
Para terminar, é verdade que Bolsonaro existe, com mais sombras do que luzes e mais incógnitas do que realidades. E também existe Lula, com toda sua história e todas suas contradições. O que não sabemos é como a História nos contará um dia este momento, que em outras colunas em já chamei de dor de parto, mais do que de funeral e morte. E em todo parto existe, ao mesmo tempo, dor e felicidade, ansiedade e esperança.
E, acima de tudo, a certeza de que a vida, com todas suas amarguras e crueldades, verdades e mentiras, é o único e o melhor que temos. Que no Brasil predomine, apesar de tudo, a cultura da vida e não a da morte. Essa é a grande aposta e a grande resistência. Para isso, todos deveríamos andar de mãos dadas.

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