sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Os cegos - os tolos

Os cegos - os tolos
Numa cidade da Índia viviam sete sábios cegos.

Como seus conselhos eram sempre excelentes, todas as pessoas que tinham problemas os consultavam.
Embora fossem amigos, havia uma certa rivalidade entre eles que, de vez em quando, discutiam sobre o qual seria o mais sábio.

Certa noite, depois de muito conversarem acerca da verdade da vida e não chegarem a um acordo, o sétimo sábio ficou tão aborrecido que resolveu ir morar sozinho numa caverna da montanha. Disse aos companheiros:

– Somos cegos para que possamos ouvir e compreender melhor do que as outras pessoas a verdade da vida. E, em vez de aconselhar os necessitados, vocês ficam aí brigando como se quisessem ganhar uma competição. Não agüento mais! Vou-me embora.

No dia seguinte, chegou à cidade um comerciante montado num elefante imenso. Os cegos jamais haviam tocado nesse animal e correram para a rua ao encontro dele.

O primeiro sábio apalpou a barriga do animal e declarou:

– Trata-se de um ser gigantesco e muito forte! Posso tocar os seus músculos e eles não se movem; parecem paredes…

– Que bobagem! – disse o segundo sábio, tocando na presa do elefante. – Este animal é pontudo como uma lança, uma arma de guerra…

– Ambos se enganam – retrucou o terceiro sábio, que apertava a tromba do elefante. – Este animal é idêntico a uma serpente! Mas não morde, porque não tem dentes na boca.

É uma cobra mansa e macia…

– Vocês estão totalmente alucinados! – gritou o quinto sábio, que mexia as orelhas do elefante. – Este animal não se parece com nenhum outro. Seus movimentos são ondeantes, como se seu corpo fosse uma enorme cortina ambulante…

– Vejam só! – Todos vocês, mas todos mesmos, estão completamente errados! – irritou-se o sexto sábio, tocando a pequena cauda do elefante. – Este animal é como uma rocha com uma cordinha presa no corpo. Posso até me pendurar nele.

E assim ficaram horas debatendo, aos gritos, os seis sábios. Até que o sétimo sábio cego, o que agora habitava a montanha, apareceu conduzido por uma criança.

Ouvindo a discussão, pediu ao menino que desenhasse no chão a figura do elefante.

Quando tateou os contornos do desenho, percebeu que todos os sábios estavam certos e enganados ao mesmo tempo. Agradeceu ao menino e afirmou:

– Assim os homens se comportam diante da verdade. Pegam apenas uma parte, pensam que é o todo, e continuam tolos…!

O absurdo bozonazi-fascista ultraliberal


29 de nov de 2018

Em 1 mês de Jair Bolsonaro eleito, ao menos 40 retrocessos e absurdos; veja a lista


Quando tinha se passado apenas uma semaninha desde a eleição de Jair Bolsonaro (PSL) para a Presidência da República, contabilizei aqui no blog ao menos 14 medidas anunciadas que significariam grande retrocesso ou que eram simplesmente absurdas. Continuei computando uma a uma (com as devidas atualizações, já que houve também vários recuos, após a péssima repercussão que alguns anúncios tiveram), e hoje divulgo a lista fechada do primeiro mês de Bolsonaro eleito. Cheguei ao número redondo de ao menos 40 retrocessos e absurdos – embora, vendo os parêntesis com links explicativos, o número possa ser bem maior, porque cada uma das coisas tem vários desdobramentos. Isso significa uma média de mais de um por dia. E olha que o novo presidente nem tomou posse ainda. Boa sorte para nós a partir de janeiro!

Dentre as várias coisas escabrosas da lista, destaco as várias imbecilidades no campo diplomático, a começar pela escolha desastrosa de chanceler para o Itamaraty, mas seguindo com a ideia de trocar a embaixada de Tel Aviv para Jerusalém (comprometendo as relações com os países árabes, sem qualquer vantagem em troca dessa insanidade) e com o colapso do Mais Médicos a partir de fala estabanada do Bolsonaro, colocando em risco o atendimento de milhares de brasileiros.

Mas tem ainda um monte de coisas terríveis, como a investida contra jornais e jornalistas, a perspectiva de rifarem o patrimônio brasileiro para o capital estrangeiro (a começar pelo pré-sal), a escolha de um ministro da Educação que é contra o Enem, é pró-golpe militar e acha que democratizar as universidades é “bobagem”, e a convocação de vários outros nomes esdrúxulos ou corruptos para compor a equipe de transição e os futuros ministérios (que, diga-se de passagem, devem ser 21 ou 22, e não os 15 prometidos em campanha).

Enfim, como muitos de nós temíamos, as perspectivas para o Brasil nos próximos quatro a oito anos não são nada boas.


2. Ministros confirmados incluem Sergio Moro, general Heleno, e o superministro Onyx Lorenzoni, que ocupará a Casa Civil. Onyx foi citado durante a Lava Jato e confessou ter recebido R$ 100 mil de caixa 2 na campanha de 2014.


4. Retirar ensino superior do MEC pode provocar quebra no atual sistema educacional (AQUI, mais sobre as propostas do presidente eleito para a educação, que incluem mensalidades em universidades públicas e ensino à distância desde a infância).


6. Pela primeira vez na História, Congresso veta jornalistas em plenário no primeiro compromisso de Bolsonaro eleito (AQUI, Bolsonaro ameaçou a Folha de S.Paulo; AQUI, ele barrou vários jornais em sua primeira coletiva após eleito; ataques dele à imprensa chegaram a 10 por semana).



9. Bolsonaro não abre mão sobre flexibilização de posse de arma (e AQUI, Eduardo Bolsonaro defende ampliação do acesso a armas por decreto presidencial; lembrando que há mais mortes de crianças por arma de fogo nos EUA em Estados com legislação flexível).



12. Sobre os “guardas da esquina” desde que Bolsonaro foi eleito: além da deputada que quer perseguir professores, temos o estudante que pregou “matar a negraiada“, o homem que foi espancado e morto por oito homens que gritavam o nome de Bolsonaro, os alunos da USP pregando mensagens de ódio às mulheres. Ah, e policial federal manda cinegrafista apagar imagens de Bolsonaro. Não vi nenhuma reação do presidente eleito a esses crimes praticados por apoiadores.

13. Bolsonaro demonstra desconhecimento ao falar sobre cálculo do desemprego no IBGE. (E precisamos ter muito cuidado com manipulação de dados oficiais a partir do ano que vem, hein?)




17. Bolsonaro diz que, em seu governo, “vai tomar conhecimento da prova antes” da realização do Enem pelos estudantes, medida que confronta critérios técnicos e de segurança do exame.


19. O superministro Paulo Guedes já gerou crise com o legislativo, o que deve comprometer a governabilidade do novo presidente. (Sem contar o tanto que demonstrou desconhecimento sobre coisas básicas, como a votação do Orçamento)

20. Bolsonaro gera crise com a China, maior parceiro comercial do Brasil.



23. Alberto Fraga (DEM), que tem áudio gravado pedindo propina, foi convidado (e depois desconvidado, tamanha a repercussão negativa)para fazer parte do governo.

24. Bolsonaro repetiu a mentira do “kit gay”, comprovadamente falso, em entrevistas já como presidente eleito. Ou seja, ele não se importa de mentir MESMO, nem quando a campanha eleitoral já acabou.

25. Joaquim Levy, que falhou no ajuste fiscal como ministro da Fazenda do governo Dilma, é anunciado como presidente do BNDES do novo governo.


27. Bolsonaro dá declarações irresponsáveis sobre Cuba, colapsa o Mais Médicos, irrita prefeitos que dependem do programa para manter a saúde funcionando e ainda pode gerar apagão de atendimentos em pequenas cidades do país. Nada menos que 24 milhões de brasileiros foram prejudicados. (Questionado sobre repercussão, ele encerra coletiva. Fujão.)


29. Equipe de transição já tem racha. Imagina como será quando esse povo todo estiver efetivamente no poder, a partir de janeiro!



32. Bolsonaro discute privatização da Petrobras, nosso maior patrimônio. (Depois o futuro presidente da estatal negou privatização… Mas daí Paulo Guedes diz que vai criar Secretaria de Privatizações. E Futuro chefe da Petrobras já disse que privatização da empresa é “urgente”).

33. Ainda na série “adeus, patrimônio brasileiro”: Paulo Guedes escolhe especialista em privatizações para o comando da Caixa


35. Equipe de transição discute retirar Funai do Ministério da Justiça; temor é que vá parar nas mãos do agronegócio, colocando em risco pelo menos 130 demarcações que ainda dependerão do novo governo.

36. Começou o cabide de emprego, que você também pode chamar de nepotismo: Boslonaro vai voltar Comunicação Social ao status de ministério e quer nomear o filhote que é apenas vereador para o cargo de ministro. Motivo: “ele é fera em redes sociais”. (Depois… adivinha? Ele recuou da ideia)


38. Bolsonaro não decepciona em sua ruindade: depois de quase anunciar Mozart Ramos, diretor do Instituto Ayrton Senna e que parecia bastante qualificado para o cargo de ministro da Educação, e depois de o nome de Mozart ter sido vetado pela bancada evangélica (!) por ser, aparentemente, neutro em relação ao Escola Sem Partido, Bolsonaro elege o colombiano Ricardo Vélez Rodríguez para o cargo. Ah sim: Rodríguez foi indicado por Olavo de Carvalho, que já tinha emplacado o chanceler. Impressionante como esse astrólogo e pseudofilósofo tem influência sobre o futuro presidente do país, que horror! O novo ministro da Educação é contra o Enem!!! Ah, e disse que o golpe de 64 tem que ser comemorado!!!

39. Bolsonaro se oferece a Trump como aliado-chave e relança cúpula conservadora latina. Sem comentários. Leiam a reportagem de Afonso Benites no El País e pensem no estrago que isso pode causar ao Brasil.

40. Novo ministro da Educação diz que Bolsonaro poderá ver a prova do Enem antes (o que confronta critérios técnicos e de segurança do exame) e diz ainda que democratização da universidade “é bobagem”. Adeus, alunos mais pobres com ensino superior! Adeus, cotas!

(to be continued… pelos próximos quatro anos!)

Do Kikacastro
No Luíz Müller

Atualizando...

41. Bolsonaro desmente Onyx diante das câmeras e diz que participou de decisão sobre a COP 25



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quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Paranoico, será?

Paranoico, será?
Cultura

Entrevista

Bolsonaro pratica “política da paranoia”, diz psicanalista

por Radio France Internationale — publicado29/11/2018 01h30, última modificação 28/11/2018 16h11
O Brasil sofre de "patologia histórica profunda" e rompe o pacto democrático internacional, avalia Tales Ab’Saber
José Cruz/Agência Brasil
Bolsonaro pratica "política da paranoia", diz psicanalista
Com Bolsonaro, o Brasil "fica reduzido e provinciano"
Um mês após a eleição de Jair Bolsonaro à presidência do Brasil, intelectuais e pesquisadores ainda tentam entender o que levou um povo conhecido internacionalmente por sua cordialidade e alegria a eleger um candidato de extrema direita.
Para o psicanalista, ensaísta e professor de Filosofia da Psicanálise na Unifesp Tales Ab’Saber, a própria psicanálise, mas também a filosofia e a literatura podem explicar as contradições de um Brasil em crise de identidade.
“Os brasileiros ficaram loucos?”, perguntou uma conhecida jornalista na rádio France Inter ao entrevistar o fotógrafo Sebastião Salgado após a eleição. Salgado respondeu: “Foi o Brasil que ficou louco” e remontou à destituição de Dilma Rousseff em 2016.
Esta também é a opinião de Ab’Saber, autor do livro “Lulismo, Carisma Pop e Cultura Anticrítica”, entre outros, e vencedor de dois Jabutis (em 2005 e 2012). “O Brasil ficou louco, sim. Uma loucura que diz respeito claramente a romper o pacto democrático ocidental, seus princípios de civilidade e sociabilidade, e até mesmo seus fundamentos legais, já que a velha ética, no nosso caso, já foi dispensada há muito tempo”, dispara.
RFI: Quais os efeitos dessa "loucura"?
Tales Ab’Saber: O Brasil se torna reduzido e provinciano novamente, caipira e inimigo dos valores democráticos globais. Parece mesmo que o Brasil está louco, rompendo os tratos societários da vida contemporânea global. Ao menos é isso que ouvimos todos os dias da imprensa liberal mundial e de cidadãos democráticos esclarecidos de toda parte.
Todo mundo nos diz que estamos loucos, é verdade. E não é de hoje. Não por acaso diziam isso abertamente durante os 18 meses da crise artificial movida para a derrubada da presidente Dilma Rousseff. Um ano e meio de país parado e bloqueado por si mesmo. E depois diante das práticas de exceção jurídicas de muitas ordens utilizadas para criminalizar e prender o ex-presidente Lula, criando as condições estranhas para a eleição de um Bolsonaro, para muitos juristas, de toda parte, um julgamento sem provas.
As elites brasileiras, e o povo brasileiro engajado no populismo autoritário do ex-capitão do Exército, de fato fizeram – ou desfizeram – tudo isso em apenas quatro anos. Uma loucura política única, de efeitos graves, até mesmo para um país como o Brasil.
RFI: Como aconteceu esse processo?
TAB: Hoje existem juristas que dizem simplesmente que a Constituiçãobrasileira de 1988 não legisla mais. Ela é usada, falseada e ultrapassada de acordo com os poderes que estão em jogo, a cada momento do quadro de forças e de interesses.
Nossa ordem jurídica seria uma falsificação interessada, pronta para ser negada, como foi em muitos momentos da criminalização da esquerda, ou da liberação geral dos atos de quebra de decoro democrático de Jair Bolsonaro, espantosos, por um pacto social ordenado desde cima, que o desejou e criou como uma alternativa possível. O Brasil tornou a voz de uma posição exterior à democracia democrática.
E, de fato, o interesse das elites ditas modernas, que agora se acanham diante do mau humor do mundo com o destino do Brasil, é que o governo de extrema direita no poder destrua de modo livre e definitivo os pactos sociais que foram necessários, acordados na saída da ditadura em 1988, que orientavam a construção da tênue socialdemocracia brasileira, para fazer o ajuste fiscal desejado, tornado hoje como um verdadeiro Santo Graal econômico da vida brasileira e da cabeça de tabela de bolsas de valores de nossas elites. E, como todo mito, pronto para explodir no ar.
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Ab'Saber: 'Sempre existiu um Brasil autoritário' (Reprodução)
RFI: As "fake news" são um sintoma da doença?
TAB: O Brasil está louco, por todos estes critérios de civilidade, cosmopolitismo e de lei que perde a própria legitimidade. E também não. Não, o Brasil não está louco. Porque, apesar da novidade tecnológica espetacular do uso maciço e de forma ilegal de mentiras industriais na internet, deste novo tipo de tomada do poder de nossa elite com tendências antidemocráticas, de fato observamos apenas o retorno de um ciclo de desrespeito democrático de uma nação que foi constituída assim desde suas raízes.
Apenas verificamos mais um dos tropeços de nosso trabalho democrático, um grande mal-entendido, como dizia Sérgio Buarque de Holanda, que vai alinhar esta fase perigosa da democracia brasileira com os períodos antissociais ou não democráticos do passado: nosso Império escravocrata do século XIX, nossa República Velha antipopular e racista, a ditadura dos anos 1930 e 1940, de Getúlio, e por fim, mas não por último, a ditadura militar da Guerra Fria de 1964-1985, na qual tem origem o espírito belicoso e de política da paranoia de Jair Bolsonaro.
RFI: Mas o Brasil parecia ter avançado...
TAB: Embora o mundo não saiba direito, e nos julgue por liberais, democráticos e criativos, há um Brasil real que sempre foi inimigo desta modernidade que o próprio país representou em algum momento do século XX, a modernidade derivada e expressa em nosso modernismo cultural, uma modernidade que poderíamos chamar de erótica.
Sempre existiu um forte Brasil autoritário, antissocial e antierótico, que talvez o mundo desconhecesse em intimidade. Mas nós não. Certamente esta é uma faceta triste de nossa normalidade nacional, de fato a nossa maior loucura, nossa própria história, que insiste em se repetir.
RFI: E qual seria, então, o remédio para esta loucura coletiva?
TAB: Podemos dizer que não estamos mais nas condições de alienação e miséria dos anos de 1960, da nossa última gestão política abertamente autoritária: o País se modernizou, se integrou numa sofisticada rede de comunicações e milhões sentiram a experiência da subjetivação política e da cidadania nos últimos anos, embora o resultado produzido na política seja uma lamentável tendência neofascista, uma real regressão democrática.
Há acumulação de experiência e algum debate público, nem sempre isento ou qualificado, que será interessante observarmos o desenvolvimento quando os equívocos anunciados e as violências projetadas do governo da nova direita se revelarem.
Como está escrito no túmulo de Marcuse, em Berlim, não temos nenhuma alternativa neste momento, apenas a certeza de que 'o trabalho da civilização continua'.