quarta-feira, 25 de março de 2015

DESAFIO E DESAFIO

Governo grego desafia o “sistema” da União Europeia e Rússia desafia o “sistema” global

23/3/2015, [*] Conflicts Forum, Comentário Semanal, 13-20/2/2015
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu
                     POSTADO POR CASTOR FILHO
Sir John Sawyers
No início dessa semana (13-20/2/2015), o chefe recentemente aposentado do Serviço Secreto da Inteligência Britânica, Sir John Sawyers, disse:
(…) mas a crise na Ucrânia já não é crise só sobre a Ucrânia. Agora é crise muito maior, muito mais perigosa, entre Rússia e os países ocidentais, sobre valores e ordem na Europa.
Alertou que os países ocidentais têm de “encarar” Moscou, mas
(...) uma vez que Mr. Putin vê a questão em termos da própria segurança da Rússia, ele estará preparado para ir mais longe que nós.
Não se pode adivinhar o que, exatamente, o Sir subentende nesse confronto de valores: possivelmente, só quis destacar o meme já conhecido, segundo o qual a secessão voluntária da Crimeia, que votou a favor de separar-se da Ucrânia, equivaleria a pôr em risco toda a “ordem” europeia (muitos interpretam assim, embora, para isso, seja preciso fazer-se de cego e não ver o que aconteceu no que foi um dia a Iugoslávia).
Ou, possivelmente, SirJohn falava de algo mais profundo: que Moscou estaria realmente desafiando o Ocidente, ao reclamar prerrogativas para a Rússia contra a ordem financeira e comercial global e o respectivo modelo de governança democrática-consumerista liberal/neoliberal apresentado como imperativo universal; e a respectiva reengenharia da ordem internacional, distanciada das normas sobre as quais ela foi fundada, com coerção geofinanceira, isolamento e sanções. O sentimento de choque existencial prevalente entre quase todos os russos, sim, sugere fortemente que estejamos assistindo a algo bem profundo: um choque de valores civilizacionais à moda Fukayama (sic), que parece ser o que Sawyers está apontando.
Yves Smith
Em certo sentido, essa tensão russa de algum modo ecoa aquela outra crise da Europa, crise – que também é de “valores e ordem” – que se vê no desafio que a Grécia trouxe à elite da UE. Como Yves Smith observou:
Esse incidente [o rompimento das conversações do Eurogrupo com a Grécia]sugere que está em curso uma luta muito mais básica, que não aparece diretamente refletida nas conversações da Grécia com a Troika. O governo grego e seus credores parecem ter visões fundamentalmente diferentes sobre o que a Grécia realmente tem poder para fazer.
De fato, a posição dos vários credores da dívida grega é que a Grécia já entregara parte significativa da própria soberania, se não toda ela, em troca do dinheiro do “resgate”. E os credores teriam fixado um sistema de arrecadação pelo qual a Grécia jamais conseguiria livrar-se das dívidas e obrigações.
Dito de outro modo: a Grécia, na visão dos credores, teria sido reduzida, submetida em vasta medida a autoridades da Eurozona, sobre as quais não há controle algum; e teria perdido todos os direitos e benefícios de ser parte de uma federação real – o principal dos quais é poder receber transferências fiscais.
Por seu lado, a Grécia tem a visão de que ainda é Estado e ainda têm direitos que não lhe podem ser tirados.
Se é essa a natureza subjacente do desentendimento, da qual as dificuldades na negociação seria mero sintoma, não há motivo algum para manter alguma esperança de acordo futuro, exceto se o governo do SYRIZA capitular. A Grécia está efetivamente pedindo uma mudança na ordem constitucional oculta: quer dizer, dos vários termos impostos nos acordos de resgate que outros estados periféricos tratam como cláusulas cogentes e irrevogáveis. Mudanças nas ordens constitucionais são difíceis, para dizer o mínimo; e quase sempre só acontecem via golpes ou guerras.
De fato, o SYRIZA está contestando as prerrogativas do microcosmo, assim como a Rússia desafia o macrocosmo. A Grécia contesta a ordem financeira (como se vê na priorização absoluta dos credores sobre quaisquer outros interesses, inclusive a própria realidade ou o sofrimento humano); e também desafia o modelo de governança – o neoliberalismo institucionalizado – que determina que a Grécia seja sangrada até que pague as dívidas que, avaliadas com realismo, são absolutamente impagáveis, e cuja cobrança esvazia qualquer aspiração que a Grécia tenha à soberania. E a Grécia também está desafiando a prerrogativa que teria aquela ordem financeira de coagir financeiramente (ameaçando com levar os bancos gregos à falência), para obter o que quer.
Syriza comemora vitória eleitoral
Um analista sugere, com boa percepção da realidade, que a verdadeira luta da Grécia seria menos contra o Eurogrupo (o microcosmo), mas, de fato, mais, com o que há por trás dele: o “estado profundo” financeiro, desterritorializado, de Europa & EUA.
Para muitos, seria “irracional” desafiar esse “estado profundo” de Europa & EUA; e que a Grécia – para ser racional – teria de aceitar, no último momento, o que lhe ordena “Mr. Market”. Mas o que se tem visto no caso presente é que o partido SYRIZA não parece ser o velho partido social-democrático centrista, que sempre cede. E o argumento dele não é a velha dialética simplória do pró ou anti-mercado.
O argumento agora é mais complexo, sobre o quanto políticas monetaristas radicais, a manipulação pelo Banco Central Europeu e umas poucas formas de negociar operadas por uns poucos grandes atores de mercado distorceram o “mercado”, a ponto de o converterem numa autocracia global predatória e impermeável a qualquer mecanismo ou controle democrático.
Não surpreende portanto que essas duas crises (à primeira vista tão separadas e diferentes) – Ucrânia e Grécia – estejam se politizando muito rapidamente (cada dia mais gregos mostram-se mais abertos a Moscou que a Bruxelas, como mostram pesquisas recentes). Há sem dúvida uma correlação política entre todos os partidos políticos europeus que compreendem o sofrimento dos gregos e que se mostram mais ‘abertos’ para a Rússia.
Superpreocupados talvez com a questão da dívida e com o destino do euro, parece que perdemos de vista a questão política: o governo grego está desafiando o “sistema” União Europeia de modo muito fundamental (e a Rússia está desafiando o “sistema” global). Não surpreende que partidos políticos por todo o sul da Europa, também desencantados com a violência e a intolerância de Bruxelas, estejam prestando tanta atenção. Também eles, com certeza, já perceberam que o SYRIZA fez uma aliança com um partido da Direita, na construção de uma campanha comum anti-‘sistema’ (mesmo que, no longo prazo, esses caminhos tenham de se separar).
Esse quadro deve ter desencadeado arrepios de medo em muitos partidos europeus de centro, comprometidos com o arrocho [“austeridade”] e com a União Monetária Europeia.
Eurozona
Muito provavelmente, é o medo – mais de contágio político, que de contágio financeiro – que está provocando reações nas euro-elites, que as fazem reagir com tanta fúria no caso grego. Mas a própria fúria, a irascibilidade, da resposta daquelas elites e dos líderes europeus, ameaça converter uma disputa econômica em disputa nacionalista – incendiando as chamas do nacionalismo (e do sentimento anti-alemão) por todo o sul da Europa e pelos Bálcãs.
Vê-se que os partidos euro-céticos no Reino Unido, França e Itália, inter alia, estão de olhos postos, acompanhando o destino da rebelião dos gregos. Nos Bálcãs, essas crises gêmeas também já convergiram na percepção pública, e estão reabrindo as feridas do desmembramento da Iugoslávia.
Para os sérvios, especialmente, a crise ucraniana desperta emoções de déjà vu: a Ucrânia está sendo instrumentalizada, ferramenta do desejo ocidental de castigar a “impertinência” e a “ousadia” da Rússia, como Croácia e Eslovênia foram instrumentalizadas, ferramentas do desejo do mesmo ocidente, de também castigar uma Sérvia que se “atrevia” a tender, também, a favor dos russos.
Yves Smith (acima) ecoa o ponto de Sawyer, de que desafios a valores coletivos ou à ordem estabelecida nunca são facilmente bem-sucedidos, e praticamente sempre só se consumam mediante conflito, que é o que torna tão intratáveis essas duas crises. O elemento comum a ambas é um desejo de recobrar a soberania assaltada pela ordem financeira e política global ou financeira: em outras palavras, o desejo de “ressoberanizar” os dois estados “contestadores”.
É bastante claro que os EUA não querem Rússia “ressoberanizada”, nem a Alemanha quer alguma “ressoberanização” da Grécia (seja por medo de criar um precedente para Espanha, Portugal e Itália, seja pelo custo político, para a Alemanha, de ver desmoralizadas a sua autoridade e a sua liderança na Europa).
E é nessa profundidade que as crises gêmeas na Europa têm laços que as conectam também ao Oriente Médio. Perguntado recentemente se via solução política para a Síria, o embaixador russo em Beirute respondeu que a crise ucraniana tornava improvável qualquer movimento nessa direção; o Moscow Times também citou um conselheiro do Ministério da Defesa, especulando que, no caso de os EUA armarem Kiev, a Rússia armaria o Irã.
Mapa da aliança de segurança da Rússia
Mas, mais que esses links óbvios, a crise ucraniana – e a guerra geofinanceira desencadeada contra a Rússia – levou a Rússia a reagir no Oriente Médio, onde hoje trabalha conscientemente para reformatar a região como área mais multipolar e não denominada em dólares. Os três pilares atuais do Oriente Médio – Irã, Turquia e Egito – começam a interessar-se por construir laços mais firmes com China e Rússia e (em ritmos diferentes) afastam-se do comércio dolarizado, pelo menos nas transações entre eles mesmos.
Em outras palavras, qualquer escalada nessa dupla crise e em suas tensões inerentes incidirão diretamente sobre a capacidade de Europa e EUA mediarem conflitos no Oriente Médio, uma vez que Rússia, Irã, Egito e Turquia são, total ou parcialmente, atores chaves para ajudar a encaminhar solução nos atuais conflitos regionais.
Só para repetir bem claramente: a crítica que o presidente Putin faz contra a “ordem” global e contra os EUA estarem armando o sistema financeiro global encontra muitos ouvidos simpáticos por todo o mundo “não ocidental”.
E se a Grécia tiver de ser transformada em estado falido (para desencorajar os outros (pour décourager les autres [para desencorajar os demais, fr. no orig.]), se acelerará a tendência no Oriente Médio, de estados separarem-se do mundo unipolar, para caminhar na direção de multipolarismo mais bivalente.
A Grécia sempre foi membro do núcleo da União Europeia (é dos primeiros países que se uniram à UE – antes de Espanha ou Portugal); e a Grécia é membro da OTAN. Qualquer reorientação da Grécia na direção de Rússia e China (em busca de ajuda para enfrentar a saída do euro), ou a decisão dos gregos de se separarem da OTAN, dispararão ondas de choque por todos os Bálcãs.
Rota da Seda Sul (vermelho) e Rota da Seda Marítima (azul)
(clique na imagem para aumentar)
A China já especula sobre a possibilidade de estender sua Rota da Seda, seu corredor econômico, pela Turquia, pela Sérvia, até a Hungria (que desafiou “regras” da UE e recebeu o presidente Putin em Budapest). Há conversas também sobre um gasoduto que ligaria o novo “Ramo” Turco (que substitui o “Ramo Sul”) à Grécia, Sérvia e Hungria – e que correria talvez ao longo da projetada estrada de trens de alta velocidade e o corredor econômico chinês que ligará essa parte do sudeste da Europa.
Tudo isso acontecendo como o previsto, parte significativa do leste europeu estará já muito fisicamente orientada para, e conectada com, o Oriente Médio e, dali para a frente, também para/com Rússia e China.
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[*] Alastair Crookeàs vezes erroneamente referido como Alistair Crooke, (nascido em 1950) é um diplomata britânico, fundador e diretor do Conflicts Forum, uma organização que defende o engajamento entre o Islã político e o Ocidente. Anteriormente, foi figura proeminente, tanto da Inteligência Britânica (MI6) como da diplomacia da União Europeia como conselheiro para assuntos do Oriente Médio de Javier Solana (1997-2003), no cargo de High Representative for Common Foreign and Security Policy da União Europeia. Foi ácido crítico da violência e saques militares contra os territórios palestinos e movimentos islâmicos de 2000-2003. Esteve envolvido nos esforços diplomáticos no Cerco da Igreja da Natividade, em Belém. Foi membro do Comitê Mitchell sobre as causas da Segunda Intifada, em 2000. Manteve encontros clandestinos com a liderança do Hamas em junho de 2002. É defensor ativo do engajamento do Hamas no processo de paz na Palestina, a quem ele se referiu como “Combatentes da Resistência".
Crooke estudou na University of St Andrews (1968–1972) do qual ele obteve um mestrado em Política e Economia. Seu livro Resistance: The Essence of the Islamist Revolutionfornece informações sobre o que ele chama de “revolução islâmica” no Oriente Médio, ajudando a oferecer insights estratégicos sobre as origens e a lógica de grupos islâmicos que adotaram resistência militar como uma tática, incluindo Hamas e Hezbollah. Seguindo a essência da Revolução islâmica desde as suas origens no Egito, através de Najaf, Líbano, Irã e da Revolução Iraniana até os dias de hoje, desbloqueando algumas das questões mais espinhosas que cercam estabilidade na atual paisagem do Oriente Médio
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[*] Conflicts Forum visa mudar a opinião ocidental em direção a uma compreensão mais profunda, menos rígida, linear e compartimentada do Islã e do Oriente Médio. Faz isso por olhar para as causas por trás de narrativas contrastantes: observando como as estruturas de linguagem e interpretações que são projetadas para eventos de um modelo de expectativas anteriores discretamente determinam a forma como pensamos - atravessando as pré-suposições, premissas ocultas e até mesmo metafísicas enterradas que se escondem por trás de certas narrativas, desafiando interpretações ocidentais de “extremismo” e as políticas resultantes; e por trabalhar com grupos políticos, movimentos e estados para abrir um novo pensamento sobre os potenciais políticos no mundo.

Bra[z]il, país moderno

Bra[z]il, país moderno

Isso é um país moderno: é legal abrir off-shore de apartamento funcional, não é, Joaquim?

Autor: Fernando Brito
caramujo
Uma das coisas que me encanta no Brasil é como todos são tratados da mesma maneira.
Imaginem o que seria descobrir que a Presidenta Dilma Rouseff abrira uma empresa off-shore em Miami dando como endereço “Palácio da Alvorada, Brasília”e com ela comprasse um apartamento num condomínio de luxo lá mesmo, no coração da pátria brasileira que habita a Flórida?

Ora, não aconteceria nada, segundo a Justiça  brasileira, que acha que isso “não comprova irregularidades”.
Pois foi exatamente isso o que aconteceu com o ex-ministro Joaquim Barbosa, que em pleno exercício  do cargo no Supremo Tribunal Federal, que presidiu, e gozando de uma moradia funcional, e usou como referência para abrir a sua Assas JB Corp, uma empresa fantasma só para escapar do pagamento de impostos na sua transação imobiliária.
Joaquim Barbosa teve recusada a ação popular que questionava a transação pela 5ª Turma do Tribunal Regional Federal da 1ª Região.
O que quer dizer que, a partir de agora, já se pode abrir empresas nos EUA, nas Bahamas ou nas Ilhas Virgens usando como endereço um apartamento funcional.
E, como elas, adquirir patrimônio no exterior sem pagar impostos no Brasil.
Assim, com aval da Justiça.
Daqui a pouco vão dar endereço no HSBC da Suíça com endereço público.
Ainda bem que somos uma ditadura bolivariana, não é?

a maior montanha plana do mundo

a maior montanha plana do mundo

Monte Roraima: a maior montanha plana do mundo


Na América do Sul, o monte Roraima, um dos mais altos planaltos da região, tem duas características pouco comuns: além de se estender por três países (Venezuela, Brasil e Guiana), é completamente plano. Alvo de lendas e superstições, é hoje tema de documentários sobre a Natureza, explorações científicas e escaladas para os mais aventureiros.


"Há várias lendas antigas e mitos desde os primeiros povos que habitavam nas redondezas. Descrito pela primeira vez apenas em 1596, por Sir Walter Raleigh, foi também fonte de inspiração ao criador do famoso detective Sherlock Holmes, Arthur Conan Doyle, para a sua obra de 1912 O mundo perdido."
monte roraima: a maior montanha plana do mundo
roraima mountain montanha plana
Está entre as formações geológicas mais antigas da Terra, quando os continentes ainda nem estavam separados, há cerca de dois biliões de anos. O Monte Roraima foi ganhando este aspecto devido à acção do vento e da chuva, que foram “moldando” as suas rochas.
Situado num terreno montanhoso rodeado por outros imponentes montes, faz parte do chamado grupo Tepuis. Este grupo caracteriza-se pela sua forma natural: praticamente plana, como se os seus montes fossem mesas. Com uma extensão de 31Km2, está distribuído entre três países: no sul da Venezuela, no extremo norte do Brasil e no oeste do Guiana.
Desde sempre o Roraima despertou interesse e curiosidade. Há várias lendas antigas e mitos desde os primeiros povos que habitavam nas redondezas. Descrito pela primeira vez apenas em 1596, por Sir Walter Raleigh, foi também fonte de inspiração ao criador do famoso detective Sherlock Holmes, Arthur Conan Doyle, para a sua obra de 1912 O mundo perdido.
roraima mountain montanha plana
Em 2006, uma equipa de cientistas partiu numa exploração às recentemente descobertas grutas de Roraima. Um ano depois, retornariam com alguns apoios por parte da NASA, para uma maior investigação sobre micróbios encontrados nas paredes das grutas que poderiam trazer pistas sobre a vida noutros planetas.
As escaladas, subidas e descidas pela montanha datam já de 1884. Sir Everard Im Thurn, após várias tentativas de chegar ao topo, encontra finalmente um caminho pelas encostas. Apesar do difícil e íngreme acesso, foi o primeiro tepui a ser escalado. Hoje em dia, é esse o percurso mais usado pelos aventureiros que procuram uma experiência diferente.
Alcançar e percorrer os 90 Km do cume não é tarefa fácil. Pode levar dois dias até lá e sete dias para uma “exploração” total de toda a área. A caminhada começa do lado venezuelano. Na aldeia indígena de Paraitepuy, próxima da zona, é possível encontrar um guia para acompanhar a viagem, já que as nuvens e o tempo chuvoso podem levar alguém a perder-se no caminho. Para além da maravilhosa vista, da diversa fauna e flora que Roraima oferece, o ponto alto é a “Pedra Maverick”, que se assemelha a um modelo de automóvel dos anos 70. Os milhões de litros de água que escorrem pelo monte formam riachos e quedas de água de 979 m - entre elas, “Santo Angel”. Esta é a única maneira de chegar, sem recorrer ao uso de equipamentos de alpinismo. Do lado de Guiana e do Brasil, devido às falésias que rodeiam o monte, é impossível contorná-lo sem esta ajuda.
Para protegê-lo, foi transformado em 1989 em Parque Natural.
roraima mountain montanha plana
roraima mountain montanha plana
Fontes das imagens: 1, 2, 3, 4.


diana ribeiro

Gosta de cores, comer algodão doce, ouvir as ondas do mar, cheirar e tocar em livros novos. Não dispensa o uso de nenhum dos sentidos.
Saiba como escrever na obvious.

O familiar Homo Ignorans

O familiar Homo Ignorans

Ladislau Dowbor: O familiar Homo Ignorans


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do Outras Palavras
Que será a racionalidade? Um caminho para o conhecimento? Ou a busca de suposta superioridade moral, para disfarçar preconceitos e busca e privilégios?
Por Ladislau Dowbor
homo sapiens todos conhecemos. Inclusive a maior parte da teoria econômica e das teorias das transformações sociais se baseia numa compreensão otimista de que o homem absorve conhecimentos, confronta-os com os seus objetivos racionalmente entendidos, e procede de acordo. Quando erra, analisa os erros e corrige a sua visão para não repeti-los.

Naturalmente, é agradável pensarmos que somos, conforme aprendi na escola, animais racionais, racionalidade que nos separaria confortavelmente dos animais. As minhas dúvidas aumentam proporcionalmente à minha idade, o que significa que são elevadas. Pensar que somos mais do que somos é uma atitude muito difundida. A bíblia já abre com o tom adequado: Deus nos criou à sua imagem e semelhança, o que implica por virtude dos espelhos que somos semelhantes nada mais nada menos que a Ele. O tamanho desta pretensão, e o fato de passar tão desapercebida e natural, já mostra a que ponto a nossa racionalidade pode ser adaptada ao que é agradável, mas não necessariamente ao que é verdadeiro.
Pensar na dimensão irracional da nossa inteligência, ou nas raízes interessadas e ideologicamente deformadas do que nos parece racionalmente verdadeiro, é muito interessante. Existe um termo simpático para isto, que é a racionalização. Fazemos uma construção racional em cima de fundamentos profundamente enterrados na confusão de paixões, medos, ódios e sentimentos contraditórios. Quanto maior o preconceito – no sentido literal, raiz emocional que assume a postura antes do entendimento – maior parece ser a busca do sentimento de superioridade moral.
Devemos lembrar como foram denunciados e massacrados ou ridicularizados os que lutaram pelo fim da escravidão, pelo fim da discriminação racial, pelos direitos de organização dos trabalhadores, pelo voto universal, pelos direitos das mulheres? Hoje é a mesma luta pela redução das desigualdades, pelo fim da destruição do planeta, pela democratização de uma sociedade asfixiada por interesses econômicos. Aqui precisamos de muito bom senso e generosidade. Ou seja, emoções e indignações sim, mas apoiadas na inteligência do que acontece no mundo e visando o interesse maior de todos, e não no interesse particular de defesa dos privilégios.
Aqui realmente é preciso de muita ignorância, ou seja, desconhecimento (voluntário ou não), para não se dar conta dos desafios reais. O aquecimento global é uma ameaça real, mas a direita tende a negar, como se o termômetro e a medida dos gazes de efeitos de estufa fossem de esquerda. O desmatamento generalizado do planeta está levando a perdas de solo fértil em grande escala, quando iremos precisar de mais área de plantio. A vida nos mares está sendo esgotada pela sobrepesca e em 40 anos, segundo o WWF, perdemos 52% da vida vertebrada no planeta. É um desastre planetário espantoso, mas não aparece na mídia comercial. Os dados sobre a inviabilização ambiental do planeta são hoje amplamente comprovados. Mas as opiniões se dividem: é questão de opinião ou de conhecimento dos dados?
No plano social é mais impressionante ainda: até Davos escuta e divulga as pesquisas da Oxfam, do Banco Mundial e das Nações Unidas, dos inúmeros institutos de pesquisa estatística em todos os países sobre a desigualdade crescente da renda. Pior, temos agora os dados da desigualdade do patrimônio acumulado das famílias – 85 famílias são donas de mais riqueza acumulada do que 3,5 bilhões de pessoas na base da pirâmide social – gerando tensões insustentáveis, mas em Wall Street enchem a boca e declaram “greed is good”, é bom ser ganancioso. Sobre esta desigualdade de patrimônio uma das principais fontes é o Crédit Suisse, que tem boas razões para entender tudo de fortunas familiares. Vamos tampar os olhos e fazer de conta que acreditamos que é possível manter a paz política e social num planeta onde 1,3 bilhões não têm acesso à luz elétrica, 2 bilhões não têm acesso a fontes decentes de água, 850 milhões passam fome. Tem sentido acreditar no bom pobre¸ que se resigna e aceita, quando hoje até no último degrau da pobreza há uma consciência do direito a ter uma escola decente para o filho, saúde básica para a família? Aqui já não são apenas os olhos e os ouvidos que estão tapados, e sim a própria inteligência.
E porque toda esta riqueza acumulada no topo não serve para as reconversões tecnológicas que nos permitam salvar o planeta, e para financiar as políticas sociais e inclusão produtiva capaz de reduzir as desigualdades? Basicamente porque está situada em paraísos fiscais, aplicada em sistemas de especulação financeira, sequer interessada em investimentos produtivos tradicionais. Os 737 grupos que controlam 80% das atividades corporativas do planeta são essencialmente grupos financeiros. Fonte? O Instituto Federal Suíço de Pesquisa Tecnológica. São recursos que não só se aplicam em especulação financeira em vez de investimento produtivo, como migram para paraísos fiscais onde não pagam impostos. O Economist estima que sejam 20 trilhões de dólares, um pouco menos de um terço do PIB mundial.
O Brasil tem cerca de 520 bilhões de dólares em paraísos fiscais, da ordem de 25% do PIB. O HSBC que o diga. Mas no Brasil a grande vitória é a eliminação da CPMF que cobrava ridículos 0,38% sobre movimentações financeiras. No Brasil a direita identifica o culpado pelas dificuldades atuais: não o desvio de recursos através da máquina financeira, mas os excessos de gastos sociais do governo. Ainda bem que temos a corrupção para canalizar a atenção e os ódios. O uso produtivo dos recursos não seria mais inteligente?
Não há nenhuma confusão sobre as dimensões propositivas: se estamos destruindo o planeta em proveito de uma minoria que pouco produz e muito especula, trata-se de tributar a riqueza improdutiva para financiar as políticas tecnológicas, ambientais e sociais indispensáveis aos equilíbrios do planeta. Com Ignacy Sachs e Carlos Lopes apontamos rumos básicos no documento Crises e Oportunidades em Tempos de Mudança, não são ideias que faltam: falta muita gente que tampa o sol com a peneira dos seus interesses se dar conta dos desafios reais que enfrentamos.
Confesso que ando preocupado. Parece que quanto maior a bobagem declarada, maior o sentimento de superioridade moral. E o ódio, esta eterna ferramenta dos preconceituosos, é um sentimento agradável quando se consegue encobrir o interesse com um véu de ética. Nesta nossa guerra permanente entre o frágil homo sapiens e o poderoso e arrogante homo ignorans, a olhar pelo mundo afora, e pelos gritinhos histéricos de extremistas por toda parte – sempre em nome de elevados sentimentos morais e com amplas justificações racionais – o direito ao ódio parece superar todos os outros. Pobre Deus, nosso semelhante.

“se quisermos conhecer a verdade sobre nós mesmos”

“se quisermos conhecer a verdade sobre nós mesmos”

Carl Jung e o que devemos perceber “se quisermos conhecer a verdade sobre nós mesmos”

Um pequeno trecho de uma palestra do psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), fundador da Psicologia Analítica, enfatiza um dos pontos do post anterior (“Não sou eu, é você: os conflitos internos e a ilusão da responsabilização dos outros, num livro do Osho“) que contém um discurso do filósofo indiano Osho sobre a sombra, sobre a necessidade de conhecer ou reconhecer a própria capacidade para a maldade como caminho inescapável do auto-conhecimento. Ver e reconhecer profundamente nossas próprias capacidades malignas é o processo que nos capacita a conhecer a verdade sobre nós mesmos, e diz Jung, “é incrível como as pessoas se enganam nesse ponto“.
A palestra faz parte da 13ª da série EHT Lectures, de 16 de fevereiro de 1940, na Swiss Federal Institute for Technology (“Eidgenössische Technische Hochschule Zürich”).
Um trecho bem maior e mais completo da palestra está em inglês no blog JungNet.
Abaixo está a tradução do trecho mais curto:
“Esse é um fato simples da natureza, o ser humano não é só bom, ele também é mau.
Se quisermos conhecer a verdade sobre nós mesmos devemos perceber que somos capazes de grande virtude e também do pior vício.
É incrível como as pessoas se enganam nesse ponto.
Elas parecem se ver apenas quando são amigáveis e bondosas.
Mas e então o que são os bombardeios em cidades abertas e o assassinato de mulheres e crianças com armas de fogo?
As pessoas que estão fazendo isso não são pessoas particularmente cruéis, são pessoas comuns como todos nós.
Elas apenas foram um pouco além dos seus próprios limites, exatamente como alguém que demonstra grande virtude também foi um pouco além de si mesmo.
Somos assim forçados a perceber que temos um fundo que vai mais longe do que nossas consciências normais conseguem saber”.
Carl G. Jung, ETH Lectures, pg. 245.

Pensamentos e Reflexões de Kahlil Gibran

Pensamentos e Reflexões de Kahlil Gibran

33 pensamentos e reflexões de Kahlil Gibran sobre o coração da vida, o tempo, a natureza e o Nirvana, de “Areia e Espuma”

Em 1927, a poetisa norte-americana Bárbara Young, que assessorava o poeta e filósofo libanês Gibran Kahlil Gibran (1883-1931), propôs a ele reunir num volume os pensamentos que não haviam sido incluídos em outros livros seus, ao que ele respondeu, desfavoravelmente: “Haveria aí somente areia e espuma“. E daí mesmo se fizeram areia e espuma: “Falando assim, viu nesta própria expressão um título feliz. E começou a interessar-se pela obra”, explica a introdução biográfica da versão em português de “Areia e Espuma“, lançado naquele mesmo ano e traduzido algumas décadas depois por Mansour Challita (edição Associação Cultural Internacional Gibran, 1976). Desta obra, com 322 pensamentos e reflexões a respeito da vida, da morte, do ser humano e do universo, 33 foram selecionados e estão abaixo, desta mesma edição e tradução.
Que afirma que este “é um livro de profunda ternura humana“. Escrito quatro anos depois da sua obra-prima, “O Profeta” (1923), “Areia e Espuma” marca a transição de Gibran do ‘vírus Nietzschiano’ para a bondade evangélica. “O escritor que proclamava em As Tempestades que todos os homens são cadáveres pútridos, que é urgente enterrar, afirma agora: ‘Quando alcançares o coração da vida, não te achareis superior ao criminoso nem inferior ao profeta.'”.
Essa coleção me chegou através de um dos aforismos, pequeno mas bem grande, que dizia: “As tartarugas conhecem as estradas melhor do que os coelhos“. Compartilhado ontem na página do Dharmalog no Facebook e Google Plus.
As 33 frases selecionadas estão abaixo:
“AREIA E ESPUMA”, Aforismos Selecionados
Por Gibran Kahlil Gibran (tradução mansour Challita)
— Vi, uma vez, o resto de uma mulher, e contemplei todos os seus filhos ainda não nascidos. E uma mulher olhou para minha face, e conheceu todos os meus antepassados, mortos antes que ela nascesse.
— Tive um segundo nascimento quando minha alma e meu corpo se apaixonaram e se casaram.
— A lembrança é uma forma de encontro.
— O esquecimento é uma forma de liberdade.
— Medimos o tempo pelo movimento de incontáveis sóis; e eles medem o tempo com pequenas máquinas em seus pequenos bolsos. Agora, diga-me: como poderemos jamais nos encontrar no mesmo lugar e na mesma hora?
— Não podemos atingir a aurora sem passar pela noite.
— Coisa estranha, o desejo de certos prazeres é uma parte de minha dor.
— Minha solidão nasceu quando os homens elogiaram meus defeitos faladores e censuraram minhas virtudes silenciosas.
— Quando a vida não encontra um cantor para cantar o seu coração, produz um filósofo para falar a sua mente.
— O real em nós é silencioso; é o adquirido que fala.
— Se o Inverno dissesse: “A Primavera está no meu coração”, quem acreditaria no Inverno?
— Toda semente é um anseio.
— Muitas doutrinas são como a vidraça da janela. Vemos através dela, mas ela nos separa da verdade.
— As árvores são poemas que a terra escreve sobre o firmamento. Derrubamolas e transformamo-las em papel para registrar nosso vazio.
— Até o espírito mais alado não pode escapar da necessidade física.
— Nunca concordei inteiramente com meu outro Eu. A verdade parece estar a meio caminho entre nós dois.
— Se não compreendes teu amigo em todas as circunstâncias, nunca o compreenderás.
— Eu também sou visitado por anjos e demonios, mas livro-me deles. Quando é um anjo, rezo uma velha preçe, e ele fica entediado; Quando é um demônio, cometo um velho pecado, e ele vai-se embora.
— Quem te dá uma serpente quando pedes um peixe, talvez não tenha senão serpentes para dar. É, então, uma generosidade de sua parte.
— Quando alcançares o coração da vida, não te acharás superior ao criminoso, nem inferior ao profeta.
— A luta na natureza é a desordem ansiando pela ordem.
— Não fosse por nossa concepção dos pesos e medidas, sentiríamos o mesmo deslumbramento ante o vagalume e o sol.
— A morte não está mais perto do idoso do que do recém-nascido. Nem a vida.
— O óbvio é aquilo que ninguém enxerga, até que alguém o expresse com simplicidade.
— Uma raiz é uma flor que despreza a fama.
— Se enchesse a mim mesmo com tudo o que sabes, que espaço ficaria para tudo o que não sabes?
— Um fanático é um orador completa mente surdo.
— Quando chegares ao fim do que deverias saber, estarás no princípio do que deverias sentir.
— Um exagero é uma verdade que perdeu a calma.
— Sim, o Nirvana existe: está em conduzir teu rebanho a um verde pasto, e em pôr teu filhinho na cama, e em escrever a última linha de teu poema.
— As tartarugas conhecem as estradas melhor do que os coelhos.
— Quando tens prazer em amar teu próximo, teu amor deixa de ser uma virtude .
— Todo homem é o descendente de todo rei e de todo escravo que já viveram.
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Foto de mschellhase (licença de uso Creative Commons BYlink)

PEGOU UM TUCANO! ESTAVA MORTO!!

PEGOU UM TUCANO! ESTAVA MORTO!!

Moro, e o Álvaro Dias? Não era da mesma CPI?

Coitado do Anastásia … Pagou o pato sozinho …




A propósito da assombrosa informaçao de que o Moro, o implacável de Guantánamo, pegou um tucano (morto), amigo navegante enviou a seguinte breve reflexão:

Amigo, o Catão dos Pinhais está VIVO e era membro da mesma CPI do falecido Guerra.

Guerra e o Catão eram na verdade os únicos tucanos da CPI. 

Será que o Guerra comeu os dez pedaços da pizza de milho sozinho ?

Naquela pizza de milho, cada pedaço valia um milhão…

Por que o Moro não pergunta ao ilustre senador paranaense: ilustre Senador, o falecido Guerra comeu os dez pedaços sozinho ?

Saudações paranaenses e, como diz você, quá, quá, quá !

Paulo Henrique Amorim

cinco motivos para você ter mais medo de Eduardo Cunha

cinco motivos para você ter mais medo de Eduardo Cunha

Eduardo Cunha ou Frank Underwood, você tem mais medo de quem?

Presidente da Câmara dos Deputados é comparado com frequência ao personagem da série americana "House of Cards". Conheça cinco motivos para você ter mais medo de Eduardo Cunha do que de Frank Underwood

eduardo cunha frank underwood
Eduardo Cunha (PMDB-RJ), presidente da Câmara e Frank Underwood, personagem da série ‘House of Cards’ (Imagem: Pragmatismo Político)
Caderno PrOA
Desde que assumiu como presidente da Câmara, o deputado Eduardo Cunha já se acostumou a ser comparado com o ardiloso político interpretado na série americana House of Cards pelo ator Kevin Spacey.
A aproximação de Cunha com o personagem Frank Underwood, um homem que não encontra limites para sua ambição política, seduziu até mesmo a revista britânica The Economist, que fez a brincadeira em uma reportagem publicada em fevereiro. Na semana em que o deputado brasileiro provocou a queda de um ministro, o PrOA se pergunta: quem é mais perigoso?
1. Colegas do Partido Democrata e adversários do Partido Republicano desconfiam das intenções espúrias de Frank Underwood, que corta um dobrado para conquistar aliados para seus planos de poder. Já Eduardo Cunha conta com o apoio de boa parte do Congresso — e é até aplaudido quando depõe em CPI.
2. Frank Underwood não está nem aí para a vida sexual dos eleitores. Já Eduardo Cunha criou uma comissão especial para que a tramitação do projeto que reconhece como família apenas núcleos familiares formados por um homem e uma mulher seja acelerada, é autor do projeto para a criação do Dia do Orgulho Hétero e posiciona-se contra a adoção de crianças por casais gays.
3. Frank Underwood só está interessado em ter mais poder, mas não pesa sobre ele a suspeita de desviar dinheiro para proveito próprio, enquanto Eduardo Cunha foi acusado de fraudar licitações para favorecer a construtora de um colega de partido durante o governo de Anthony Garotinho. Em depoimento à Polícia Federal sobre o esquema de desvios da Petrobras, o policial afastado Jayme de Oliveira Filho disse que entregou malas de dinheiro em uma casa na Barra da Tijuca que seria de Eduardo Cunha.
4. Frank Underwood quer ser lembrado por um grande projeto de combate ao desemprego nos Estados Unidos (o America Works). Eduardo Cunha deverá ser lembrado como o presidente da Câmara que afirmou que a descriminalização do aborto só seria votada no Congresso se passasse “sobre o seu cadáver”.

5. Frank Underwood é um personagem com fome de poder, cometeu crimes e provocou o impeachment de um presidente, mas é de mentirinha. Eduardo Cunha é de verdade. E mora no Brasil.
MAIS SOBRE EDUARDO CUNHA:
(1) “Vou engavetar a regulamentação da mídia”, diz Eduardo Cunha
(2) Conheça Eduardo Cunha, o novo presidente da Câmara dos Deputados
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Reforma política x campanha eleitoral

Reforma política x campanha eleitoral

Reforma política x campanha eleitoral: Colonização do Estado

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Não há campanha eleitoral em nenhum lugar do mundo sem dinheiro. No Brasil, as campanhas são financiadas por meio de recursos públicos e privados de empresas e de pessoas físicas.
Empresas não têm direito a voto, mas influenciam o resultado das eleições na medida em que canalizam recursos para determinadas campanhas alinhadas aos seus interesses corporativos. Há uma relação direta entre campanhas políticas abastadas e resultados eleitorais positivos. Empresas não são associações beneméritas. Antes objetivam legitimamente o lucro e esses recursos devem ser encarados como investimentos direcionados para esse fim.
O dinheiro aplicado nas eleições coloniza o Estado por interesses particulares nem sempre coincidentes com o bem comum, além de manietar a vontade popular e estabelecer distorções representativas que estão na base da desconfiança geral que o povo vem demonstrando em relação à política. Por isso, há uma hiper-representação das forças alinhadas ao capital no Congresso Nacional e uma sub-representação de trabalhadores urbanos, camponeses, aposentados, estudantes, profissionais liberais etc.
A operação Lava-Jato, talvez apenas a ponta do iceberg, expôs de maneira ainda mais contundente a inconveniência desse modelo ao revelar a promiscuidade entre políticos e empreiteiras. Qualquer proposta séria de combate à corrupção deve atacar a raiz de suas causas e uma delas reside no financiamento empresarial das campanhas, quando se estabelece o apadrinhamento de candidatos, os quais eleitos passam a advogar os interesses dos financiadores.
No julgamento da ADI 4650 ainda não concluído em função de um pedido de vista do Ministro Gilmar Mendes, formou-se maioria no plenário do Supremo Tribunal Federal no sentido de considerar inconstitucional o financiamento de campanha por pessoas jurídicas. Há um projeto em trâmite avançado no Congresso Nacional que segue na mesma direção. Isso demonstra uma salutar e mais do que urgente preocupação institucional com a questão.
Em tempos sombrios como estes é preciso cultuar a democracia e seus valores. Aprimorá-la antes de tudo, sabendo que ela tem um custo, o qual pode ser pago pela sociedade de maneira clara e transparente por meio do financiamento exclusivamente público das campanhas ou às escondidas em acordos e negociatas impublicáveis, matéria prima de crises intermináveis.
Yuri Carajelescov é professor da FGV Direito SP


Reforma política x campanha eleitoral: Proibições são ineficazes

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A doação empresarial para campanhas eleitorais está em xeque. A questão jurídica foi levada ao Supremo Tribunal Federal (STF). A lei autorizou doações privadas para os partidos, mas a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) as considera inconstitucionais. A tese teve votos favoráveis no STF. O ministro Gilmar Mendes não se convenceu e quis pensar melhor. Qual a dúvida? É que, não havendo regras específicas na Constituição sobre o assunto, os críticos se satisfizeram com argumentos principiológicos: eleições envolvem cidadania, empresas não são cidadãs, o poder econômico afeta o jogo democrático, etc.
São argumentos plausíveis, baseados em valores constitucionais. Mas é um exagero olhar só os potenciais problemas das doações empresariais — que são reais, como a Operação Lava-Jato demonstra — e daí concluir pela impossibilidade absoluta de a democracia conviver com elas. Os países que as adotam, como os Estados Unidos, não são democráticos?
Decisões principiológicas são perigosas. Vamos banir o financiamento empresarial só por que, considerados seus defeitos reais, ele parece menos democrático do que um sistema idealizado, cujos defeitos reais ninguém testou no Brasil?
Talvez nossa democracia possa melhorar com o financiamento público. Mas não é certo, é uma aposta. Na prática o resultado pode ser ruim. Por isso há divergência política a respeito.
Uma primeira dificuldade é dividir os recursos públicos disponíveis. Quem vai ganhar mais e quem vai ganhar menos? Qual é o critério democrático? E como fazê-lo prevalecer, se os partidos dominantes é que vão legislar?
O pior é que as proibições legais costumam ser ineficazes no mundo real (o tráfico de drogas é a prova). Vindo uma proibição radical, os partidos mais sérios só terão o financiamento público, que é limitado, enquanto os ligados à criminalidade manterão o bônus do financiamento privado ilícito, que será ilimitado. Um sistema assim será mais compatível com a democracia do que o atual?
Carlos Ari Sundfeld é professor da FGV Direito SP e presidente da Sociedade Brasileira de Direito Público (SBDP)

TELEGUIADO VIA MIDIA

TELEGUIADO VIA MIDIA

A grande imprensa e a midia em questão: o caso da blindagem de FHC pela Globo e pela Reuters

 "O noticiário pessimista induzido pela imprensa diariamente teria menos efeito no ânimo dos cidadãos se eles soubessem como é produzido."



A NOTÍCIA COMO ELA É

A receita da salsicha

Por Luciano Martins Costa em 25/03/2015 na edição 843 do Observatório da Imprensa

“Os cidadãos não dormiriam tranquilos se soubessem como são feitas as leis e as salsichas.”

  A frase, atribuída ao chanceler do império germânico Otto von Bismarck (1815-1898), poderia receber uma paródia muito a propósito: “Os cidadãos dormiriam mais tranquilos se soubessem como é feito o jornalismo”. Seria uma maneira de dizer que o noticiário pessimista induzido pela imprensa diariamente teria menos efeito no ânimo dos cidadãos se eles soubessem como é produzido.
 Eventualmente, um vacilo da redação torna pública a manipulação de reportagens e entrevistas, como aconteceu no dia 8 de fevereiro deste ano, quando circulou nas redes sociais cópia de mensagem enviada pela diretora da Central Globo de Jornalismo, Silvia Faria, recomendando aos chefes de núcleo da emissora que retirassem qualquer referência ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso do noticiário sobre o escândalo da Petrobras.
 Segundo o jornalista Luís Nassif, que divulgou o fato em seu site noticioso (ver aqui), o texto trazia como assunto: “Tirar trecho que menciona FHC nos VTs sobre Lava a Jato” (sic) e alertava: “Revisem os vts com atenção! Não vamos deixar ir ao ar nenhum com citação ao Fernando Henrique”.
 A confissão explícita de que o mais influente telejornal da emissora que domina as audiências é condicionado de cima para baixo não surpreende quem sabe como a salsicha é feita: o Grupo Globo deve ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso o saneamento de suas dívidas, obtido com um empréstimo do BNDES, no valor de R$ 600 milhões, concedido em 2002, no fim do seu segundo mandato. Além disso, a parceria tem outras raízes: a jornalista que constrangeu o ex-presidente com um filho que não era dele – e que FHC, inadvertidamente, reconheceu num cartório da Espanha (ver aqui) – era funcionária da TV Globo e foi premiada com um exílio na Europa há vinte anos.
 A vida privada de políticos não deveria interessar ao jornalista, desde que os eventos particulares não interfiram nos fatos públicos. Não é o caso: a cumplicidade entre a principal emissora do país e um ex-presidente que segue influenciando a política e a economia nasce de ato indecoroso do então ministro do governo Itamar Franco, acobertado pela empresa de comunicação e que, possivelmente, criou as condições para uma decisão de Estado – o favorecimento num empréstimo do banco estatal de desenvolvimento.
 Autobiografia terceirizada

  Nesta semana, as entranhas da salsicha midiática voltam a ser expostas à visitação pública por um ato falho do correspondente-chefe da agência de notícias Reuters, Brian Winter, que em sua edição brasileira publicou entrevista com o ex-presidente, na qual Fernando Henrique Cardoso afirma que seu sucessor, Lula da Silva, tem mais responsabilidade no escândalo da Petrobras do que a atual presidente, Dilma Rousseff.
  Às 9h08 de segunda-feira (23/3), a entrevista assinada por Brian Winter trazia uma afirmação de Fernando Henrique segundo a qual a corrupção se tornou mais intensa durante o governo Lula. Mas logo adiante, no sexto parágrafo, podia ser lido o seguinte: “Entretanto, um dos delatores do esquema, o ex-gerente de serviços da Petrobras Pedro Barusco, disse que o esquema de pagamento de propinas começou em 1997, durante o governo tucano”.
  A pérola é o que se segue – entre parênteses, o autor faz uma ressalva ao editor: “(Podemos tirar, se achar melhor)”. Ou seja, o jornalista inseriu informação que relativizava a declaração do entrevistado e, em seguida, recomendou que a referência à origem da corrupção na Petrobras, durante o governo FHC, fosse cortada do texto final.
  Após alguma repercussão nas redes sociais, o site da Reuters republicou a entrevista, sem a recomendação de Winter, mas deixava uma pista também entre parênteses: “(Reenvia texto publicado originalmente na segunda-feira para excluir nota do editor no fim do 6º parágrafo)”.
  Este observador pediu explicação à agência de notícias e até a manhã de quarta-feira (25/3) não obteve resposta.
  O correspondente Brian Winter, no Brasil desde 2010, publicou quatro livros, três dos quais são biografias: uma de Pelé, outra do ex-presidente colombiano Álvaro Uribe, e a terceira de Fernando Henrique Cardoso. O livro intitulado O improvável presidente do Brasil, publicado em 2007, originalmente em inglês, foi ditado pelo ex-presidente ao jornalista Brian Winter, que aparece como coautor, o que permite ao modesto sociólogo falar de si mesmo na terceira pessoa.
 Deu para entender como é feita a salsicha?