sábado, 10 de maio de 2014

Notas esparsas

Notas esparsas

Notas esparsas: senso comum, saber e arrogância, literatura, religião, política, Gilberto Freyre, educação, revolução, etc.

by Antonio Ozaí da Silva
imagesSenso comum
O que é o senso comum? Por que nós, os intelectuais, geralmente somos tão reticentes a tudo que consideramos “senso comum”: a cultura popular e de massa, a religiosidade, linguagem não-formal, etc.? Há até mesmo os que têm dificuldades em se relacionar com as pessoas comuns, isto é, os simples mortais que não frequentam os bancos universitários ou mesmo acadêmicos, tão influenciados pela indústria cultural, que não conseguem ver além dos próprios narizes e... umbigos. Suas conversas sobre o cotidiano, o corriqueiro, quase que crônicas da vida, até irritam alguns entre nós. E muitos se exasperam quando leem o que seus alunos escrevem e notam que eles não conseguem analisar e avançar pelo menos um passo para além do senso comum. Outras vezes, o nosso intelectualismo nos torna chatos e incapazes de dialogar minimamente com os comuns dos mortais sobre as coisas mais simples da vida – em geral, temas que consideramos supérfluos, perda de tempo... A resistência ao que consideramos senso comum, portanto, conhecimento não-científico, desqualificado, é tão forte no meio acadêmico que até mesmo os estudantes tem a expectativa do “discurso professoral”. A medida da inteligência passa a ser a ininteligibilidade. Quanto menos você se faz entender, mas inteligente parece ser!
downloadSaber e arrogância
“Quanto mais vivo, quanto mais leio, quanto mais pacientemente penso, quanto mais ansiosamente questiono, menos pareço saber”, afirma John Adams.[1] Revejo minhas anotações de leitura e fico a pensar. Quanto mais leio, mais me convenço de que pouco sei; que o meu saber é uma gota d’água no oceano do conhecimento universal. E mais me admira a arrogância de certos jovens acadêmicos, pirralhos que mal sabem pronunciar frases articuladas e com sentido, e outros, de qualquer idade, cuja verborragia ostentativa, pedante e superficial confundem com saber e agem como se fossem os mais inteligentes de todo o universo. Há também a arrogância discursiva ideologizada do pretenso militante que repete slogans e verdades doutrinárias. Uns e outros consideram-se sábios e defensores da causa da humanidade, mas são incapazes de conviver com o ser humano particular e concreto no cotidiano. Revelam-se leitores de um único autor, muitas vezes de apenas um livro tomado à maneira do texto sagrado, como a verdade inquestionável.
Dialética da religião
Não sou católico, mas fiz questão de participar do ritual de crisma da minha filha. Para além das minhas opiniões sobre as religiões e ideologias seculares, esse foi um momento importante na vida dela. O amor de pai está acima das idiossincrasias e a atitude que tomamos diante de determinadas circunstâncias tem papel pedagógico. Educamos mais pelas ações do que pelo discurso. Minha filha sabe o que penso sobre a catequese, crisma e a religião em geral; mas também sabe que respeito as suas opções e crenças. A religião, já disse o filósofo alemão, é o ópio do povo. E, desde então, o dito é repetido acriticamente.
O que aparenta irracional ao descrente, pode parecer plenamente racional ao que professa a fé. O racional e o irracional não são unívocos. Como ressalta Julien Freund:
“Com efeito, acontece tratarmos como irracional uma atividade em razão de um ponto de vista exterior mais racional, embora ela comporte em si mesmo uma racionalização. A um ser irreligioso toda conduta religiosa parece irracional, da mesma forma que o ascetismo passa por irracional aos olhos do hedonista puro. O inverso é igualmente verdadeiro. Em suma, em geral a discriminação entre o racional e o irracional se faz em nome de certos valores que preferimos a outros, quando no fundo toda ideia de valor repousa sobre um momento subjetivo e irracional”. [2]
A fé é experienciada e racionalizada. Ao que não acredita resta respeitar o sentimento religioso, não lhe cabe julgar a religiosidade manifestada pelo outro. Espera-se a mesma atitude de respeito em relação àquele que não crê em Deus. Infelizmente, isto nem sempre ocorre. Quanto mais predomina o espírito de seita, maior o fanatismo e a intolerância mútua. Se o irracionalismo religioso nega ao outro o direito de professar outra doutrina e, ainda mais, o direito de não acreditar, o ateísmo também pode ser tão irracional e intolerante quanto fé do teísta.
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Existe um guia de leitura para a esquerda?
Essa pergunta me fez lembrar uma cena do filme Rosa Luxemburgo[3]. Na prisão, a revolucionária conversa com a sua carcereira, que a admira, e indica um livro de um dos maiores escritores russos, autor de Ana Karenina: Tolstoi. A sua interlocutora, mulher simples, inteligente e interessada em literatura, questiona a indicação, afinal a Alemanha estava em guerra com a Rússia. Rosa Luxemburgo, prisioneira do governo alemão, demove-a de tais pensamentos. Um grande escritor está acima das nacionalidades e das opções políticas do leitor.
O teatro político
Na política o “normal” é representar. O político necessita ser um excelente autor para convencer a si mesmo e aos outros, seus potenciais eleitores. É necessário fazer acordos, agradar a gregos e troianos. A dissimulação e o jogo das aparências faz parte do seu habitat natural. Até porque, a rigor, não estamos preparados para a verdade. A mentira é uma necessidade dos homens e mulheres comuns e, também, dos políticos. Os políticos bem-sucedidos são os que representam bem os seus papéis. Não por acaso, os consideramos nossos representantes. Ou seja, somos a plateia que aplaude ou vaia. De qualquer forma, eles atuam por nós...
download (1)A propósito de Gilberto Freyre
Um dos trechos que mais chamou a atenção na leitura de Guerra e Paz[4] foi escrito pelo apresentador da obra, Luiz Costa Lima. Ele revela o “mistério” do campo intelectual. Comentando as reviravoltas sobre a recepção da obra freyreana, Lima refere-se à auto-estilização de Gilberto Freyre, fator contributivo às polêmicas interpretações e posicionamentos em relação a este autor e sua obra:
“Para aqueles que lhes eram conterrâneos, que podiam partilhar de sua convivência e escutar suas eventuais conferências, esta auto-estilização montada sobre uma vaidade gigantesca, tinha consequências opostas. Para os mais espertos, ali estava uma figura cuja sombra, qual mangueira frondosa, podia ser explorada ser explorada em benefício próprio. Em troca de elogios e cavações, a influência nacional de Freyre podia determinar um começo de carreira ou um bom posto na imprensa. Já os menos tortuosos ali reconheciam um exemplo a não seguir. Conquanto antagônicas, essas duas direções, de um estrito ponto de vista intelectual, eram igualmente funestas. Os espertos ganhavam posições, em troca porém da esterilidade que emprestavam à obra do protetor. Dos outros, basta dizer: convertendo o autor em contra-exemplo, era a toda a sua obra que se estendia o manto do desprezo”. [5]
Eis um exemplo ilustrativo sobre o funcionamento do campo intelectual. Embora em posições divergentes, apologistas e críticos nutrem-se e nutrem o campo a partir das interpretações formuladas neste. Os autorizados a falarem pelo campo imaginam preencher o hiato entre a obra e o leitor. Como se a sua intermediação fosse imprescindível para compreender o lido!
Educação e Sociedade
A sociedade requer um ensino voltado para a carreira escolar. Em geral, não interessa se a educação torna nossos filhos melhores homens e mulheres, indivíduos mais conscientes sobre a realidade social, sobre os dilemas que a vida impõe. Não. Quer-se simplesmente que a escola prepare para ter sucesso no vestibular. E o mesmo raciocínio vale para muitos dos que conquistam a vaga no ensino superior. Pouco importa o mundo ao seu redor, desde que não atrapalhe os planos individualistas de ganhar mais dinheiro e ter uma carreira de sucesso. A universidade forma indivíduos cada vez mais descomprometidos social e politicamente com a comunidade, a sociedade e o mundo em que vivem.
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Revolução e Inquisição
As revoluções promoveram novas inquisições de caráter político. Quantos crimes foram cometidos em nome de Deus e/ou dos mais belos ideais que motivaram homens e mulheres a lutar contra as tiranias, a miséria e injustiça humanas?! Por que as lutas pela justiça, liberdade e igualdade geram novas injustiças, novas formas de tirania e desigualdade, ainda que a retórica dos novos donos do poder preguem o contrário e os governados acreditem piamente que estão a construir o paraíso na terra?!
Revolucionários profissionais
Na verdade, o questionamento da política institucional partidária não é novidade: os índices de votos nulos, brancos e dos que se abstém de votar, indicam-no; a exígua votação que os partidos de esquerda de filiação marxista e socialista também precisa ser levado em conta. A verdade, porém, é que, em geral, as vanguardas não se preocupam com isto, pois as eleições são concebidas apenas como um dos momentos privilegiados para a propaganda ideológica. Eles se preparam para a revolução, para dirigi-la. Veem-se como revolucionários profissionais, sinceros profissionais da revolução em suas casamatas burocráticas. Quem ousa duvidar da sinceridade revolucionária, ainda que alguns se percam no pragmatismo e a sua práxis política negue o discurso e teoria professados?

[1] No filme dirigido por Tom Hooper: John Adams (EUA, 2008, 501 min.), em sete episódios, é uma lição sobre a história dos EUA e, especialmente, sobre a vida.
[2] FREUND, Julien. Sociologia de Max Weber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1975, p. 105-106.
[3] Rosa Luxemburgo (Alemanha, 1986, Direção:Margarethe von Trotta)
[4] ARAÚJO, Ricardo Benzaquen de. Guerra e Paz: Casa-grande e Senzala e a obra de Gilberto Freyre nos anos 30. São Paulo: Editora 34, 2ª. ed., 2005.
[5]Idem, p. 10.
Antonio Ozaí da Silva | 10/05/2014 às 22:32 | Categorias: reflexões do quotidiano | URL: http://wp.me/pDZ7T-Cf

O linchamento do jornalismo

sábado, 10 de maio de 2014

Observatório: O linchamento do jornalismo



Observatório da Imprensa
Luciano Martins Costa, Observatório da Imprensa

O enterro da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, linchada no sábado (3/5) num bairro de Guarujá, litoral paulista, mantém no noticiário o festival de horrores composto pelo crime bárbaro em si e por interpretações apressadas e tendenciosas dos jornais.

Compreende-se o espanto produzido neste lado da sociedade, que se acredita detentor de razão e sensibilidade, pelo conhecimento dos detalhes que seguem as narrativas sobre o crime. Mas é preciso registrar que a imprensa passa ao largo de questões centrais na análise do acontecimento, e não resiste à tentação de politizar a tragédia. O papel e a tela aceitam quase tudo, então, dá-se um jeitinho de incluir o embate eleitoral nas entrelinhas do material jornalístico sobre o crime hediondo.

Na Folha de S.Paulo, o editorial de quarta-feira (7/5) afirma que “não se trata apenas de obscurantismo atávico, já em si lamentável, mas de sintoma do imenso atraso que caracteriza o Estado brasileiro”. No Globo, a arenga sobre uma suposta “percepção popular” da falência de instituições dá um jeito de vincular o linchamento ao “péssimo exemplo dado por partidos políticos, do PT ao PSDB, pelo envolvimento de correligionários em casos de corrupção”. Ora, diria o comediante, só o PT e o PSDB? Cadê os outros?

Trata-se, na verdade, de um preâmbulo para o discurso que tem marcado a imprensa brasileira na última década: “O mau exemplo do PT chega a ser mais daninho, por ter conquistado o poder com a aura de extrema seriedade e honestidade. Ao trair as promessas de defesa intransigente da ética, dá grande contribuição, infelizmente, ao descrédito da população diante dos poderes constituídos”, conclui o editorial.

Pronto: dá-se um jeito de jogar no colo do Partido dos Trabalhadores – e, por lógica extensão, da presidente da República que vai tentar a reeleição –, a culpa pelo linchamento de dona Fabiane Maria de Jesus.

Seria o caso de se perguntar ao editorialista da Folha qual seria a relação entre o crime do Guarujá e o suposto “atraso” do Estado brasileiro, mas não convém analisar o texto do Globo, porque já não se trata de jornalismo, mas de panfletagem pura e simples.

Mergulho no obscurantismo

Seria desrespeitoso considerar que os profissionais responsáveis pelos textos citados padecem de ignorância sobre fenômenos como o do linchamento. A mesma imprensa que comete essa atrocidade contra a razão, ao inserir suas preferências políticas no cenário da barbárie, cita pesquisadores que relatam a banalidade de fatos como esse no Brasil moderno: em entrevista ao Estado de S.Paulo, o sociólogo José de Souza Martins diz ter catalogado 2 mil casos de linchamento nos últimos 30 anos.

Os jornais não encontraram nenhuma condenação da Justiça para os acusados desses crimes, porque ele não é tipificado no Código Penal e, no meio do distúrbio, torna-se impossível definir quem deu a paulada ou quem atirou a pedra que causou a morte da vítima.

Mais plausível é observar como a imprensa atua contra o sistema democrático ao conectar qualquer evento negativo, seja o linchamento, seja o torcedor morto por um criminoso que atirou um vaso sanitário do alto do estádio, a uma suposta “falência do Estado” – e, imediatamente, apontando para o partido que ocupa o governo federal.

Ao repetir o bordão segundo o qual vivemos em regime de anarquia, afirmando que há uma “percepção popular da falência de instituições”, os jornais estão estimulando o vandalismo e as soluções fora da lei, justificando as mentes insanas que se julgam no direito de impor à sociedade o fruto de seus delírios de “justiçamento”.

Recentemente, um assassino entrevistado num desses programas policiais da televisão, disse que havia atirado no desafeto porque ele era “folgado”. Ora, isso nada tem a ver com o Estado de hoje, mas com o Estado histórico. Tem a ver com a permanência de bolsões de miséria, onde o lumpesinato vive sua rotina desumana. Se houve alguma mudança nesse cenário nas últimas décadas, ela se deve justamente às políticas sociais que vêm reduzindo a miséria.

Não se salta da aldeia medieval para a aldeia global por decreto, mas é fácil entender que, numa sociedade em transição, a modernidade tem que conviver com a barbárie.

Ao se desviar dessas questões e politizar o que é marginal à política, a imprensa mergulha no obscurantismo e promove o linchamento do jornalismo.

metade do Congresso tem pendências criminais

metade do Congresso tem pendências criminais

Janot: metade do Congresso tem pendências criminais

“Pouco menos de 300” parlamentares, de um total de 594, respondem a inquérito ou ação penal no Supremo, segundo o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, em entrevista exclusiva à Revista Congresso em Foco

Impunidade: quantidade de processos exigirá mais de sete anos para STF julgar tudo, revelam observações de Janot
Em 2004, o Congresso em Foco foi pioneiro no levantamento das acusações criminais contra parlamentares no Supremo Tribunal Federal (STF). De lá para cá, este site se especializou no acompanhamento das pendências judiciais de deputados e senadores. O último levantamento, divulgado em setembro do ano passado, mostrava que 224 congressistas respondiam a 542 acusações na mais alta corte do país. Mas, segundo o procurador-geral da República, Rodrigo Janot Monteiro de Barros, este número hoje é ainda maior. “É um pouco menos de 300”, disse em trecho da entrevista exclusiva à Revista Congresso em Foco. Na conta do procurador-geral, entram casos novos, mas também aqueles cuja existência é mantida sob sigilo pelo STF. Ou seja, praticamente metade dos 594 parlamentares federais é alvo de inquérito ou ação penal no Supremo.
Na entrevista, uma das raras exclusivas que concedeu desde que assumiu o cargo de chefe do Ministério Público brasileiro, Janot conta que adotou uma estratégia para tentar acelerar o julgamento das acusações criminais contra deputados e senadores: recomendar o encerramento dos processos pouco consistentes para que o Supremo se concentre nos casos de fato relevantes. “Tem problemas sérios, mas tem muita porcaria”, avalia. Para ele, é preciso desafogar o Judiciário para que os casos possam ser julgados com celeridade.
A quantidade de políticos processados, porém, pode levar à impunidade. Janot faz o seguinte raciocínio: se 200 parlamentares tivessem pendências judiciais, o STF demoraria pelo menos 400 sessões plenárias para analisar o recebimento da denúncia e julgar a acusação. Em outras palavras, mais de meia década para a conclusão de todos os casos.
“Sem contar toda a tramitação do processo, produção de provas etc etc”, afirma o procurador. “O Supremo faz sessão quinta-feira para tratar de processos penais. É só fazer a conta e ver quanto tempo vai demorar isso”, avalia Janot.
Ou seja, desconsiderando-se os políticos com mais de um processo, os recessos do STF e a possibilidade de mais de um caso ser analisados numa mesma sessão, seriam necessários  mais de sete anos para os ministros julgarem tudo. “A falta de resultado do processo penal gera frustração, que deixa na população o sentimento de impunidade.”
Na conversa, o procurador afirmou que a quantidade exata não poderia ser divulgada no momento. “A gente já tem uns números iniciais aí e eu não quero divulgar para não fazer uma declaração falsa”, disse. Depois da entrevista, o site Congresso em Foco pediu à assessoria da Procuradoria-Geral da República o nome dos deputados e senadores “sendo observados através de inquérito ou de processo penal”, nas palavras do procurador. Semanas depois, a assessoria informou que não possuía o levantamento com os nomes dos políticos com pendências judiciais.
Em um dos trechos da entrevista à revista, Janot ainda criticou a proibição das doações de empresas nas campanhas eleitorais. Para o procurador, ao contrário de combater a corrupção, a medida pode incentivar o caixa dois. “A gente pode caminhar para um sistema que não o exclua, um sistema misto que permite o financiamento público e privado, mas com controle mais eficaz.”