sexta-feira, 21 de março de 2014

ENSINAR E APRENDER


Colaboração, Trabalho em equipe e as Tecnologias de Comunicação:
Relações de Proximidade  em Cursos de Pós-Graduação.Capítulo I

ENSINAR E APRENDER: As Duas Faces da Educação
A educação escolar e a colaboração são ações que estão intrinsicamente ligadas. Ensinar e o aprender são o verso e o reverso de uma mesma medalha, a educação, e implicam em uma ação colaborativa, participativa e de construção conjunta. É essencial a percepção dessa relação para o entendimento desta tese.

1.1 Educação, direção de desenvolvimento
TOFFLER (1970), POSTMAM(1995), LÉVY(1993), DE MASI(1998 rt), CONTU (1998 rt), MACHADO(1997) são alguns dos que apontam para a educação como um caminho para a preparação e adaptação dos indivíduos em uma sociedade em constantes transformações, mas uma adaptação que seja proativa, não reativa e acomodada. Uma educação pluralista que se volte para a orientação do desenvolvimento de habilidades e técnicas de adaptação, de escolha e de tomada de decisões a partir de projeções de alternativas, possibilidades e probabilidades do futuro; uma educação que se dedique à formação de indivíduos "tecnicamente inteligentes", que ensine aos jovens como "utilizar os instrumentos práticos e mentais indispensáveis para poder viver, trabalhar, e sobretudo não se sentirem estranhos, nessa sociedade fortemente competitiva" (CONTU, 1998,12:1 rt); uma educação que privilegie a diversidade tendo uma base de técnicas comuns para a integração social, e que propicie a negociação, o trabalho em equipe, o viver e o relacionar-se com o outro.
A educação pode ser promovida nos mais diferentes ambientes sociais, mas neste trabalho, limito-me a tratar da educação, em cursos de pós-graduação em Educação, com a perspectiva de formação de professores. Dessa forma, toda a reflexão aqui desenvolvida acontece com o objetivo de fazer professores e alunos de pós-graduação experienciarem, analisarem e refletirem sobre a educação escolar como ensinantes e aprendizes. Não trato de cada fase da educação escolar, mas lembro-lhes que não podemos ensinar em um curso de graduação com a mesma postura e as mesmas crenças que portamos ao ensinarmos em um curso do Ensino Médio. Entretanto, temos que lembrar que os alunos de graduação poderão ser professores do Ensino Fundamental e Médio e que há inúmeras questões que são comuns à toda educação escolar e devem sempre estar presentes no momento do planejamento de suas ações nesses níveis. .
Educar é, pois, visto aqui como uma ação direcionadora, resgatando o passado e projetando-se no futuro, portanto, com uma historicidade própria.
Educar é tornar o homem consciente de si mesmo, de seus deveres e direitos, de sua responsabilidade para com sua espécie. Educar é tornar o homem capaz de pensar em si e nos seus relacionamentos com os outros de modo a perceber que é impossível que ele se nutra autonomamente (EMERENCIANO, 1996:140) Educar é mostrar que a inter-relação, a parceria, a colaboração são fundamentais para o crescimento pessoal e da comunidade. Educar é despertar no homem a possibilidade da ação comprometida com o interpessoal e a consciência de que toda ação tem reflexo para além do pessoal e atinge os que estão ao seu redor.
Educar é permitir, aos interlocutores educativos, a dúvida, o erro, a possibilidade de revisar e alterar posições - a partir de argumentação sólida.
O que assistimos, entretanto, como educação, no âmbito escolar, em geral, não se configura dessa forma. Muitas escolas permanecem como que impermeáveis às mudanças que afetam tanto a sociedade estruturalmente quanto as atividades de produção e de trabalho. As novas gerações freqüentam uma escola semelhante aquela que nossos avós freqüentaram. Na Europa, na América do Norte, na Austrália, ou na América do Sul, em particular no Brasil , as discussões centram-se, em geral, no tipo de currículo, na quantidade de períodos ou horas dos cursos, e deixam de lado esses objetivos. A escola moderna tal como se apresenta é um sistema integrado, coerente e efetivo para a realidade que a gerou, e na qual a tecnologia de comunicação por excelência era o texto impresso. Assim, a educação escolar tem se baseado na transmissão e na difusão do conhecimento através da linguagem escrita. A ênfase é dada à aprendizagem simbólica-reconstrutiva, que "utiliza a linguagem escrita de forma substancialmente autoritária e autosuficiente" dessa forma o pensamento linear fundamental para a clareza e distinção de conceitos vê-se ameaçada a ser deixada de lado diante de novas formas de interação humana baseadas no som, na imagem e na palavra falada. A educação escolar se dá conta muito lentamente que há uma espécie de volta à oralidade e um culto à imagem.. Essa oralidade é aquela mediada pelo vídeo, na qual o interlocutor está do outro lado e não pode ser sentido nem tocado, através de uma imagem sintética, plana que se alterna e envolve emocionalmente. Não tem memória, é fluida e transitória.
Crianças, jovens e adultos estão rodeadas por estimuladores dos sentidos, pelo rádio, pela TV, pelo vídeo, pelo cinema e recebem informações em diferentes linguagens e se vêem diante de uma outra forma de aprendizagem, esquecida na escola tradicional, a sensório-motora ou "perceptivo-motora", que se realiza observando, tocando, modificando, observado os resultados" (ANTINUCCI, 1998,13:4-5 rt).
Antes da escola sistematizada sobre a escrita, a aprendizagem se dava na experiência direta, e não só desenvolvendo habilidades, mas também, conhecimentos complexos como os de engenharia que permitiam aos romanos construírem os sistemas hidráulicos dos aquedutos romanos; o professor que não se apresentava como provedor de conhecimento, "mas como operador especialista que se observava e com o qual se interagia na utilização efetiva e concreta do conhecimento. a transmissão era indireta, aí participava de maneira substancial e determinante a experiência observativa e operativa dos alunos; era verbal apenas em parte e, neste caso, numa forma muito diferente a da verbalização 'em presença' (em presença da tarefa e da experiência factual) muito diferente daquela totalizante do texto escrito que é tomado 'em ausência' (ANTINUCCI., 13:5 rt).
Com o advento da sistematização escrita, a possibilidade de se transmitir conhecimento através do texto escrito, detalhado e compreensível por todos, apareceu como condição básica para a transmissão de conhecimento em larga escala, a escola se organizou exclusivamente sobre o modo simbólico-reconstrutivo, deixando passivo o modo perceptivo-motor (forma natural, menos cansativa e mais "divertida").
Na atualidade, constatamos que crianças, adolescentes e jovens se familiarizam de forma surpreendente com as novas tecnologias de comunicação, e, em quaisquer níveis sociais, há a expressão de sua criatividade através dessas tecnologias. Na periferia dos centros urbanos, encontram-se rádios comunitárias, ou programas de rádio, nos intervalos das aulas nas escolas públicas de Ensino Fundamental e Médio, em que adolescentes e jovens, compondo equipes criadoras, são os produtores, operadores, redatores, etc.
Os professores continuam a ser preparados utilizando os recursos tecnológicos que privilegiam a escrita. Mesmo ao participarem de oficinas ou cursos de atualização sobre as tecnologias eletrônicas recebem uma formação teórica apenas e não são expostos à experimentar, manusear e manipular essas tecnologias. Não aprendem a trabalhar com as tecnologias eletrônicas como mediadoras, não percebem que os alunos fora da escola estão envoltos em um mundo de som, imagem, de virtualidade e que a televisão e, hoje, a Internet, são janelas para o mundo que pode lhes dar uma visão distorcida da realidade. Não percebem que há interações comunicativas entre telespectadores e produtores dos programas televisivos que levam a "incorporações de imagens televisivas, de vivências e dos conhecimentos fragmentados" que podem ser articulados na escola, mas para isso é necessário que esses meios estejam presentes não só na vida cotidiana de alunos e professores, mas também nas ações educativas que esses professores realizam com seus alunos resgatando de sua memória essa experiência com as diversas mídias, estejam ela presentes ou não nas sala de aula (KENSKI, 1996:138). Atualmente, cada vez mais a televisão está sendo integrado às redes de comunicações, sua programação e muitos dos seus programas já podem ser acompanhados pela Internet. Os canais de TV a cabo se preparam para permitir acesso à Internet através do mesmo canal televisivo. Assim as crianças, jovens e adultos, e hoje até mesmo os idosos, estão acessando um mundo ainda maior de imagens, sons e informações que cada vez mais precisarão ser trabalhadas e sistematizadas em uma aprendizagem continua quer presencialmente, na sala de aula, quer através de orientações a distância que poderão ser emitidas por essas mesmas mídias.
Como a tecnologia eletrônica permite inventar uma realidade, é importante que nós, professores, percebamos que podemos ensinar nossos alunos a utilizá-la de modo a expressarem e produzirem bens culturais. Não vamos abandonar a leitura e a escrita verbal, ao contrário, vamos integrá-la à leitura e a escrita audiovisual e digital. Enquanto esta permite um ir e vir que responde aos impulsos imediatos do leitor e tem um significado instântaneo e volátil que atende à aprendizagem sensório-motora ou "perceptivo-motora", não descartamos aquela, que exige concentração, seqüência, lógica, concatenação de idéias expressas em frase, períodos e parágrafos necessárias à aprendizagem simbólica-reconstrutiva. Ambas abordagens possibilitam a conjunção de diversos tipos de inteligência e as diferentes competências individuais de forma colaborativa e integradora
Nos campi universitários, os cursos que demonstram um maior envolvimento nos projetos são os que não têm a forma de aprendizagem simbólico-reconstrutiva como exclusiva, mas aliam-na à aprendizagem perceptivo-motora, Ainda mais, com o advento do computador e da Internet, o universo perceptivo-motor se amplia com possibilidade de um maior desempenho e competência de adolescentes e jovens na manipulação das tecnologias interativas, como o computador, independente do nível social e de escolaridade.
O homem do futuro precisa ser rápido na identificação de novos relacionamentos, crítico nos seus julgamentos, isto é, cada indivíduo precisa ter habilidades e competência para aumentar sua capacidade de adaptação às mudanças contínuas. Além de compreender o passado e o presente, o homem necessita antever o futuro e antecipar mudanças, através de pressuposições, precisa saber definir, debater, sistematizar e atuar (TOFFLER, 1970). E educação escolar não pode esquecer essas competência uma vez que cada vez mais a educação se dá não apenas na escola, mas também na família, na comunidade, com profissionais e ao longo de toda a vida, não de maneira isolada e solitária, mas através das relações com outros estudiosos, com outros cidadãos, com outras pessoas.
Se a postura se modifica, se não ignorarmos a forma de aprendizagem perceptivo-motora e a integrarmos à simbólica-reconstrutiva, poderemos incluir novo saber e novo "sentir" . Assim, a construção dos conhecimentos sobre Arte, sobre os Meios de Comunicação, sobre Informática, promoverá a internalização de conceitos, hábitos e atitudes e permitirá a criação e a expressão artística, mediadas pelos meios de comunicação e/ou pela Informática.
Há uma necessidade da educação escolar retomar objetivos como a descentralização da posse dos saberes e sua difusão e a interpenetração da escola com a comunidade característica da pedagogia de C. Freinet (1896-1966). Atitudes positivas em relação às formas de aprendizagem precisam a ser consideradas e integrar o perceptivo-motor ao simbólico reconstrutivo, que não só permite a absorção de conteúdos disciplinares num sistema fechado, como também estimula a "formação para o método e para o conhecimento, desenvolvendo habilidades e capacidades, fornecendo elementos-chave e instrumentos, e não soluções e digestões de corpus predefinidos e preparados de materiais," (ANTINUCCI, 1998, 13:8 rt).
Precisa desenvolver atitudes que permitam maior conexão com a realidade do aluno e novas técnicas para se lidar com o desconhecido, com o inesperado e com o possível Essas atitudes possibilitam aprender a fazer, aprender a aprender, encarar problemas de vários pontos de vista, desenvolver relacionamentos interpessoais (aprender a viver com os outros) e a liberdade de escolha (currículo diversificado). É fundamental que se prepare o indivíduo para fazer escolhas apropriadas, para projetar o futuro com tempo suficiente de análise antes da tomada de decisão.
A escola não deve deixar ter como o objetivo o saber, atendendo às necessidades culturais e de construção do conhecimento, mas precisa desenvolver também o saber fazer, o fazer e o refletir sobre o fazer. O conhecimento deixa de ser um corpus fixo e sedimentado para ser um corpus de novos conhecimentos, em constante transformação e móvel, presente em um ciberespaço que permite a interconectividade, a multimediação e a virtualidade para as quais a escola deve habilitar e capacitar o indivíduo (CONTU, 1998, 12:2 rt).
Nesta Sociedade de Comunicação, em que os jovens estão ofuscados pela multimídia, pelos computadores e pela Internet, a aprendizagem informal, não sistematizada acontece em casa (televisão interativa, videogames, computadores), nos locais de trabalho ( geralmente informatizado), nos centros comerciais e nas rua (outdoors eletrônicos, digitalizados, quiosques interativos, sistemas automáticos). Privilegia essa forma perceptivo-motora mas não ignora a simbólico-reconstrutiva (jornais, revistas, livros especializados ou literatura).
Governo, pais e professores enfatizam a necessidade da educação preparar para uma nova sociedade com uma ação mais solidária e inclusiva. A escola não pode esquecer que é formada por cidadãos-alunos e cidadãos-professores. Sendo uma das instituições que presidem a difusão coletiva do "Saber Público", não pode abrir mão de sua função de "mediação cultural entre as gerações, para ser adequada ocasião de aprendizagem e de desenvolvimento de métodos e de 'saber-fazer' que constróem, a partir de informações difusas, conhecimentos estruturados (...) A escola deve por um lado projetar novos percursos de formação, mas de outra parte, conservar conscientemente todas as suas particularidades próprias; ser academia - onde se experimenta e se exercita - e refinaria, onde se reelabora e se aperfeiçoa " (GUASTAVINA, 1997, 9:3 rt). A metáfora da refinaria é muito interessante, no sentido em que a escola como tal dá possibilidade à reconstrução do conhecimento, à reelaboração e/ou aperfeiçoamento do saber prévio, do indivíduo e do grupo, devolvendo à sociedade um novo produto, transformado, melhorado.
Desta forma, tem que se ter clara a noção do que é educar para uma sociedade em transformação. MORAES(1998:6) enfatiza a necessidade de se ter novos espaços educacionais que permitam uma valorização do indivíduo, em consonância com uma atuação colaborativa na coletividade em que vive e "incentivo à autonomia, à criatividade, à solidariedade, ao respeito, à iniciativa, à participação e à cooperação, condições fundamentais para que os indivíduos possam sobreviver no século XXI ". Daí que se faz essencial uma nova postura em relação à formação de professores, não só em relação à sua formação técnica mas, sobretudo, em relação à formação como agente social. KENSKI (1996:139) chama atenção para o cuidado que se deve ter com a preparação de professores para trabalhar com os alunos numa sociedade de comunicação em que a televisão tem sido um meio tecnológico tão importante que produz alterações comportamentais globais: "gestos, expressões faciais, movimentos gerais do corpo, sons, musicas unem-se a palavras para comunicar o novo aprendizado". À televisão, hoje, agrega-se a Internet e os professores parecem não estarem preparados, Continuam a trabalhar apenas no âmbito do cognitivo.
Estou totalmente de acordo com KENSKI (1996:141) quando a autora lembra que os professores também estão expostos à toda essa riqueza e diversidade de linguagens e "plenos de cores, sons, movimentos e informações adquiridos em suas interações com a televisão e outras tecnologias eletrônicas de comunicação e informação" o que lhes falta é a possibilidade de conversar e contar sobre suas vivências fora da escola. Os professores e os alunos precisam de ambiente para expressarem seus sentimentos, seus anseios, suas curiosidades e suas descobertas fazendo o melhor uso e integrando as tecnologias de comunicação disponíveis à sua volta, do lápis às luvas e óculos da realidade virtual.
É fundamental que o professor pratique a leitura e até mesmo a escrita dessas mídias eletrônicas para poder trabalhar com seu alunos "o conhecimento caoticamente retido através dos meios de comunicação de massa e das mais diversas tecnologias", permitindo que cada um construa o seu próprio conhecimento dando a sua contribuição para o conhecimento coletivo.
1.2 Educação, valores e atitudes
Ainda em consonância com o tema, mas não exclusivamente formal ou metodológico, há uma outra preocupação com a qual a formação de professores deve se preocupar para que a educação escolar em uma sociedade de comunicação aconteça de forma adequada. Não é este o espaço para se tratar mais profundamente de Educação e Cidadania, mas não podemos esquecer de que estão intimamente associadas e não se concebe uma sem a outra. Ao lembrarmos que o homem vive em sociedade e para isso ele necessita ter um rol de direitos e deveres como reguladores de sua convivência social, colocamos a educação como a mediadora tanto para a incorporação desses reguladores como para o desenvolvimento de uma capacidade crítica, criativa e reflexiva para transformação desses reguladores em resposta a novos momentos e novas realidades. Os objetivos de conservação e subversão que podem ser contraditórios são na verdade complementares, parte de uma "única narrativa que diz o que é o ser humano, o que significa ser cidadão, o que significa ser inteligente" (POSTMAN, 1996:60)
A educação escolar não é vista isoladamente, mas dentro de uma totalidade envolvendo não só o que acontece na escola, mas em todos os ambientes e relações que envolvem o ser humano desde seu nascimento. A partir dessa colocação, os valores e as atitudes são elementos indispensáveis à educação. Habilidades e conhecimento são preocupações conscientes mais da educação escolar do que da educação familiar ou desenvolvida em outras relações sociais. Valores e atitudes são fundamentais e passam desapercebidas tanto na família quanto na sociedade e tornam-se raras, podendo ser consideradas como um dos elementos primordiais do fracasso escolar e da ausência de cidadania encontrados em grau preocupante nos dias atuais.
Muitos indivíduos, intuitivamente uns , ou outros, afortunadamente, por terem nascido em ambientes onde os valores positivos são desenvolvidos, têm o seu crescimento orientado pela solidariedade, honestidade, fidelidade, amizade, imparcialidade, gratuidade , amor e liberdade. Aprendem a se conhecer e a conhecer o outro; mais, a conhecer-se através do outro e respeitar o outro, conhecendo-o através dele próprio. Desenvolvem a tolerância porque o outro é outro e diferente de si, e entendem que a igualdade deve ser considerada em dimensões diferentes. A igualdade deve existir na oferta de condições de vida e desenvolvimento bem como na aplicação da justiça, mas há que se considerar que a diversidade tem que ser respeitada. Querendo tratar igualmente os desiguais, poderemos praticar uma grande injustiça. POSTMAN (1996) questiona, "pode um povo com diversas tradições, línguas, religiões, criar uma cultura unificada, coerente e estável?" ao que acrescento: a educação escolar pode ignorar essa diversidade e impor apenas uma cultura letrada ignorando as diversas "culturas" presentes na sociedade e, por conseguinte, presentes na escola? E quando se trata do Ensino Superior, é correto não trabalhar essa diversidade presente em muitos dos aspectos que o cidadão e o profissional encontrarão na sociedade como um todo e/ou na sua área profissional, em particular? Podemos desenvolver um trabalho colaborativo e participativo sem considerar essas questões?
Considero aqui a definição que Machado2 (1997:69-70 associa à educação, isto é, "a arte de conduzir a finalidades socialmente prefiguradas, o que pressupõe a existência e a partilha de projetos coletivos" buscando um "entrelaçamento, de uma fecundação mútua entre projetos individuais e coletivos". Assim como educar para a cidadania significa prover o indivíduo de instrumentos para a plena realização desta participação motivada e competente, desta simbiose entre interesses pessoais e sociais, desta disposição para sentir em si as dores do mundo; e semear um conjunto de valores universais que se realizam com o tom e a cor de cada cultura " (Machado2, 1997:106-107).
Assim, a existência do projeto é fundamental. O projeto de vida que anima, que dirige, que motiva e que empurra o indivíduo a seguir em sua lida, em sua pesquisa mesmo diante de muitos revezes, cansaço e obstáculos. Por outro lado, não se estimula, não se instiga, não se prepara nem na família, nem na escola, o indivíduo a ter seu próprio projeto e, a partir dele, participar de um projeto coletivo. Ao contrário, muitos pais e professores costumam impingir seus projetos frustrados para serem realizados pelos filhos e alunos.
Se os valores não são desenvolvidos e, portanto, não são parte da vida de adolescentes e jovens, se os projetos não são deles, e se a grande razão para se ir à escola é obter um diploma para "ter" um futuro confortável, esses jovens tornar-se-ão "cidadãos" passivos, manipuláveis e acomodados, por um lado, e frustrados, revoltados, intolerantes, propensos à violência, por outro. Professores que são indivíduos intolerantes, desiludidos, no sentido mesmo que não têm mais nenhuma ilusão e não querem mais participar do "jogo", provocam, em seus alunos, um desencanto não só em relação à escola como também em relação ao seu semelhante e à sociedade. Suas atitudes são de apatia, descaso, acomodação. Demonstram que não têm nenhum projeto pessoal, e não participam do projeto do grupo a que pertencem ou da instituição em que trabalham. Muitas vezes, colocam-se contra os que ousam ter um.
Há, ainda, muitos indivíduos competitivos, brilhantes, trabalhadores, mas movidos por um estímulo consumista que os compele a progredir, a pesquisar, a crescer em sua área de atuação para poder "ganhar" mais e "consumir' mais. Os valores que eles respeitam são os valores de mercado e as regras do jogo são feitas a partir do lema "os fins justificam os meios". Tanto do ponto de vista humano, quanto do ponto de vista profissional, impera a lei do mais forte e é isso que muitos professores deixam transparecer para seus alunos muitos dos quais assimilam não só os ensinamentos como também os conceitos de vida e passam a reproduzir a mesma postura, a mesma atitude e os mesmos valores.
Por outro lado, a tolerância e o respeito à diversidade ainda podem ser encontrados no Ensino Superior, assim como são presentes, projetos individuais ou coletivos baseados nos valores humanos que levam o homem a buscar a sua realização. Encontramos grupos de indivíduos que, silenciosamente, têm projetos coletivos dadivosos que incorporam projetos individuais e que buscam, através da colaboração e da ação participativa, solidária e transformadora, agir junto aos menos favorecidos, reconhecendo-os como pessoas e desenvolvendo-lhes a auto-estima, incorporando-os à sociedade e que não só lhes dão condições materiais, mas sobretudo desenvolvem atitudes baseadas em valores do ser com dignidade.
Essa preocupação que se demonstra, em geral, pelos menos favorecidos materialmente, deve ser considerada em relação aos jovens que têm todo o conforto material e, muito por causa disso, crescem sem projetos, sem valores, e, portanto, sem princípios - intolerantes e arrogantes - instigados apenas pelo ter cada vez mais. Os professores das escolas desses jovens, muitas vezes, se limitam a cobrir conteúdos e desenvolver habilidades operacionais. Reclamam da falta de valores e das atitudes não sociais e não colaborativas, mas não fazem nada, porque "isso já vem de casa" ou por que "na idade que já estão, atitudes e comportamentos " não são modificados. Muitos desses jovens limitam-se a freqüentar um curso superior e cumprir um ritual para continuar uma atividade já herdada do pai ou do avô, ou apenas para lhes entregar o diploma por eles desejados. Serão arquitetos, advogados, dentistas, engenheiros, médicos, etc diplomados que não exercerão a atividade ou já terão uma clientela "herdada", sem precisarem mostrar sua capacidade e competência para construir a suaprópria clientela. Por conseguinte, não serão sujeitos em processo de realização ou cidadãos críticos, proativos, criativos.
Nós, professores do Ensino Superior, precisamos ter projetos pessoais, integrá-los ao institucional, para nos sentirmos felizes, poderosos e confortáveis, para podermos seduzir nossos alunos a continuarem a sonhar e, a partir de seus sonhos, desenvolverem seus projetos individuais e criarem projetos coletivos; a serem colaboradores e participantes. Orientá-los a trabalhar e pensar reticular e significativamente, a usar a tecnologia e incorporá-la em vários níveis de atuação, como aplicação do conhecimento científico à solução de problemas e não se deixarem dominar pelo encantamento dos suportes tecnológicos que acabam hipnotizando o homem, escravizando-o. Orientá-los a trabalhar tendo como critério primordial a qualidade e a integridade. Dessa forma, poderemos ter futuros pais, futuros cidadãos, como indivíduos inteiros de corpo, mente e alma, solidários, criadores e transformadores.
1.2 Ensinar e Aprender
Tratei aqui, até agora, do educar como um processo que desmembro agora nas ações de ensinar e aprender. Antes de iniciar essas reflexões, deixo explicita o que é para mim o professor, aproveitando as palavras de BRAULT (1996:77):
É alguém que: a) sabe organizar um plano de ação pedagógica; b) que sabe preparar e organizar, concretizar e operacionalizar situações de aprendizagem; c) sabe regular o desenvolvimento da situação de aprendizagem e é capaz também de avaliar esse desenvolvimento; d) sabe gerenciar fenômenos operacionais; e) sabe fornecer uma ajuda metodológica; f) sabe favorecer a construção de projetos profissionais positivos pelos alunos, projetos de vida no início da escolaridade, projetos profissionais até o fim do 2o. grau; e finalmente, g) sabe trabalhar com parceiros(grifo meu).Dessa forma, estarei refletindo sobre ensinar e aprender em termos gerais e particularizando esse processo em cursos de pós graduação, tendo em mente um professor com essas características.O professor, profissional que deve estar em constante formação, desenvolve um trabalho que envolve duas ações que não podem ser pensadas separadamente: exatamente como em uma moeda, uma face está intrinsicamente ligada à outra e perde o valor se tomada isoladamente.
 

1.2.1 Ensinar: a face da responsabilidade pelo outro na educação
Ensinar é um processo que envolve indivíduos num diálogo constante, propiciando recursos temporais, materiais e informacionais para que se desenvolva a auto-aprendizagem e a aprendizagem com os outros ou a partir de outros (STOKROCKI, 1991). Não é apenas transmitir conhecimentos obedecendo a determinadas metodologias, cumprir os currículos de disciplinas estanques ou inter-relacionadas e "cobrir" determinados assuntos. Ensinar é fazer com que os alunos se comprometam num questionamento dialético de princípios fundamentais, desenvolvam estratégias de discussão de verdades estabelecidas É fazer com que analisem argumentos pró e contra e buscando a validação ou a contestação de hipóteses e crenças, com que estabeleçam novas hipóteses e novas crenças fundamentadas por pesquisa e reflexões sérias (CARR, 1997:325). Esse comprometimento não pode se dar apenas no âmbito individual, mas também coletivo.
Ensinar é instigar e orientar os alunos para que se apropriem de conhecimentos específicos de cada fase escolar para a "interiorização do saber sistematizado, historicamente acumulado"( LOPES, 1996:111).
Ensinar é criar condições para que os alunos desenvolvam as condições básicas de domínio das diversas linguagens, fundamentalmente a da escrita, de modo a poder sistematizar o conhecimento e expressar tanto suas dúvidas e incertezas quanto suas descobertas e criações. É, também, ajudá-los a desenvolver a reflexão, a saber fazer as perguntas certas e ir atrás das respostas adequadas
Em uma perspectiva sócio-inteacionista, é instrumentalizar os alunos para perceberem que já possuem um conhecimento que trazem de suas casas, para integrarem esse conhecimento com outro sistematizado na escola através de atos comunicativos com seus colegas e seus professores e para criarem novos conhecimentos individual ou coletivamente.
Ensinar, além de se caracterizar como uma atividade colaborativa entre professores e alunos, deve promover essa colaboração entre os próprios alunos, estimular o trabalho em equipe e proporcionar um espaço para que uns ensinem aos outros aquilo que dominam melhor. A investigação colaborativa propicia que os alunos se ajudem mutuamente na coleta e na análise de dados, e, na hora da interpretação, as vivências e as perspectivas individuais, podem produzir conclusões mais ricas.
Educadores, comunicadores, estudiosos mais atentos percebem que não se pode ter todo o conhecimento em sua área específica, e ainda mais, que esse conhecimento não é compartimentado, fragmentado em disciplinas estanques como a escola, em geral, continua a encarar.
É muito comum, no desenvolvimento da pesquisa durante os cursos de pós-graduação, depararrmo-nos com fontes e informações que podem interessar a nossos pares. À medida que encaminho essas descobertas a meus pares estou abrindo um caminho de volta de informações para a minha pesquisa. Para Dewey (apud Nassif:45), toda comunicação é educativa e o
"ser receptor de uma comunicação é ter uma experiência ampliada e alterada. Se se participa no que o outro pensou e sentiu, seja de modo restrito ou amplo, modifica-se a própria atitude. Da mesma forma, não deixa de ser afetado aquele que comunica".Concordo com KENSKI (1996:135) que "para ser eficaz como ato comunicativo é preciso que ocorra na atividade didática uma relação interativa, uma união entre as partes, no nosso caso, professores e alunos", decorrendo daí a necessidade de discussão, reflexão, aprofundamento sobre um conteúdo significativo.Assim, a comunicação educativa se faz cada vez mais necessária para que o trabalho colaborativo se instale. A colaboração permite um sem número de conexões no âmbito escolar constituindo uma experiência que pode ser transferida para outros ambientes em que o indivíduo vive. Para o trabalho colaborativo acontecer e essas conexões se tornarem significativas, há que se ter uma vivência da ação colaborativa, de participação ativa e de construção conjunta nos cursos de formação inicial e continuada de professores nas graduações específicas que os formam, como Pedagogia e as Licenciaturas e Institutos Superiores de Educação, no Ensino Médio, na modalidade Escola Normal (Magistério), nos projetos de Formação Continuada de Professores em serviço e nos cursos de Pós-Graduação. Ainda neste capítulo, há uma reflexão mais aprofundada do que vem a ser a colaboração, suas características fundamentais e sua importância na formação de ensinantes e aprendizes porque creio que essa formação precisa se desenvolver através de um trabalho individual e em grupo de reelaboração inovadora e de criação, incorporando o objeto de estudo nas mais diversas dimensões pessoais, como afirma MORAN em um dos textos encontrados em sua página na WWW ( rt ).
1.2.2 Aprender: a face da responsabilidade pessoal na educação
Aprender é construir "seus conhecimentos e sua afetividade na interação" com outros sujeitos e "por meio de influências recíprocas que vão estabelecendo cada sujeito constrói o seu conhecimento de mundo e o conhecimento de si mesmo como sujeito histórico" (LOPES, 1996:111).
Aprender significa ser capaz de reelaborar e reconstruir conhecimento através da formulação de questionamentos, de análise e síntese das descobertas. O indivíduo aprende é ao ser capaz de dialogar com o seu interlocutor, seja ele o professor, o livro, o jornal, o programa de TV, o vídeo ou a página da WWW. Dependendo do grau de escolaridade, aprender envolve saber questionar as verdades apresentadas, refletir, investigar suas dúvidas e elaborar nova síntese que lhe satisfaça a inquietação inicial.
Aprender significa ser capaz de pesquisar com olhos inquisidores, orientados por inquietações que tragam contribuições ao crescimento individual e coletivo. É um processo multifacetado e estimulante se interconectar diversas áreas do conhecimento mediadas pelas mídias impressa, audiovisual e digital em uma rede de relações interpessoais.
POSTMAN (1996:45) chama a atenção para o fato de só poder existir uma comunidade democrática e civilizada, se as pessoas que aí vivem, fazem-no de forma disciplinada como participantes de um grupo e que, portanto, precisam aprender a viver em grupo, onde as necessidades individuais estão subordinadas aos interesses do grupo. Aprender a conviver de forma colaborativa propicia o crescimento do grupo como um todo e, por conseguinte, o crescimento de cada um em particular.
Aprender implica na capacidade de construir significados, reconstruindo o passado e projetando o futuro. Se nós, professores, não temos muito claro, para nós mesmos, o que é o ensinar e o aprender e se não nos lançamos como navegadores nessa viagem estimulante, de volta ao nosso passado e nos projetamos para o futuro, como poderemos levar nossos alunos a empreender a viagem em busca do conhecimento, uma aventura que exige esforço, dedicação e que pode apresentar riscos e frustrações? Não são eles, jovens e adultos, seduzidos hoje pela mídia com "videogames" e viagens sedutoras embora alienantes?
Nós, professores, precisamos estar em constante aperfeiçoamento de nossa capacidade de reconstruir nosso conhecimento, de análise do nosso cotidiano, de questionamento da nossa prática individual e coletiva. Devemos estar alerta às constantes transformações que ocorrem no mundo para além das paredes da escola. Esse aperfeiçoamento e questionamento precisam ocorrer tanto no isolamento individual, quanto em equipes colaborativas que desenhem e realizem projetos conjuntos baseados na prática escolar. Não podemos ignorar a tecnologia que já está inserida no dia a dia do homem nesta sociedade tecnológica. Não podemos ignorar que temos uma história individual entrelaçada a uma história social.
Professores e alunos, precisamos praticar entre nós e com os outros o ato comunicativo, reconhecendo que esse ato é um ato de aprendizagem.
"... É preciso reconhecer que quero me comunicar, que quero trocar informações com alguém e que, nesta troca, vou me transformar, vou aprender" (KENSKI, 1996:135).O desenvolvimento em equipe implica em saber trabalhar de forma interdisciplinar, de modo que a interdisciplinaridade fique colada como marca d’água na nossa didática e na nossa prática escolar.A aprendizagem pode se dar através da linguagem, mas será mais completa e mais significativa se também ocorrer através da experiência, ainda que simulada. Aprender através da linguagem, via leitura dos mais diversos meios (texto impresso, vídeo, filmes, programas de rádio e de TV, programas de computador tutoriais ) ou via aulas ministradas por professores permite-nos uma leitura das idéias, dos pensamentos, das opiniões e dos conhecimentos de outras pessoas e de outras épocas assim como um confronto com as mesmas. Aprender através da linguagem implica em que se tenhamos um bom conhecimento da linguagem ou corremos o risco de não compreendermos o que "lemos" ou não sabermos "escrever" sobre o que "lemos" . A linguagem requer uma outra pessoa, a que observou, analisou, classificou, escreveu para podermos ler.
A aprendizagem por experiência nos coloca em contato direto com a realidade. Na escola, aprender por experiência ocorre nos laboratórios e, geralmente, tem a tecnologia como mediadora. Quanto maior a possibilidade de simulação maior a possibilidade o aluno tem de observar, de construir hipóteses e de testá-las para verificar se essas hipóteses estavam corretas. Aprender por experiência permite a manipulação da realidade, agindo e percebendo os resultados da nossa ação. Dessa forma, "podemos conhecer e compreender a realidade observando como ela responde às nossas ações" (Parisi, 1998, rt). É bastante raro podermos desenvolver esse tipo de aprendizagem na escola que privilegia o aprender pela linguagem escrita. Entretanto, se a escola tiver uma tecnologia que permita o uso de modelos simuladores que permitam que aquelas características obscurecidas pela linguagem escrita apareçam, as capacidades de abstração, de memória, de manipulação de símbolos e a habilidade lingüística serão complementadas pelo uso de outras capacidades como a de observar, reconhecer modelos, manipular, levantar e controlar hipóteses. Os alunos terão maior motivação para aprender e para estudar, pois com a experimentação e a simulação seguidas da reflexão estarão aprendendo mais do que apenas através da abstração. Em algumas situações estarão se divertindo, em outras estarão vivendo papéis diversos dos que vivem no seu cotidiano e, ainda, haverá situações em que serão desafiados a resolver problemas complexos.

Incorporar de forma inteligente a tecnologia significa adotar uma postura positiva e interdisciplinar em relação à tecnologia e trabalhar com elas como elementos emancipatórios na nossa prática pedagógica. Podemos aprender com essas tecnologias que a aprendizagem se dá no envolvimento integral do indivíduo, isto é,
"o emocional e o racional; a análise lógica e o lado do imaginário e do intuitivo; a imagem e o som; a açào, a presença, a conversa, a interação, o desafio, a exploração de possibilidades, o assumir de responsabilidades, o criar e o refletir juntos sobra a criação" (KENSKI,1996:146).
   

Autora:   Iolanda Bueno de Camargo Cortelazzo
Colaboração, Trabalho em equipe e as Tecnologias de Comunicação: Relações de Proximidade  em Cursos de Pós-Graduação. Tese de Doutorado - Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, 2000. 
Orientadora: Profa. Dra. Vani Moreira Kenski .


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