domingo, 21 de fevereiro de 2010

AO VENCEDOR, AS BATATAS

Pesquisas, seleção, elaboração, produção e organização por Deuzimar Menezes NEGREIROS


Aos não tão vencedores assim, o poder a eles!!?

A frase “ao vencedor, as batatas” aparece no romance Quincas Borba de Machado de Assis. A história das batatas é: havia duas tribos e...

Quincas Borba - Machado de Assis

e o Humanitismo

Publicado em 1891, ou seja, 10 nos depois da mudança radical trazida por Memórias Póstumas de Brás Cubas, o romance Quincas Borba pode ser visto como irmão da obra que inaugurou o Realismo Brasileiro. Não tem as inovações deste, mas ainda se percebe, ainda que de forma menos intensa, o mesmo dom ao trabalhar com a digressão, ironia e metalinguagem.

Outro ponto de contato é o fato de Quincas Borba ser personagem que já fazia parte de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Amigo de infância do autor defunto, tinha decaído de abastado para mendigo, depois, recebendo uma herança, tornara-se rico e criador de uma filosofia, o Humanitas ou Humanitismo.

Essa teoria é justamente o principal mote comum entre as duas obras. Há quem diga que se trata de uma paródia de Machado de Assis às inúmeras filosofias que surgiram no final do século XIX, em que todos pareciam ter uma explicação sobre tudo. No entanto, existe também a possibilidade de se ver aqui uma metaforização do próprio ideário a que o grande autor realista se apegava (interessante é notar que o fato de duas interpretações que enxergam tons opostos no Humanitas é um aspecto muito esperado na literatura machadiana, acostumada a conciliar elementos contraditórios, dilemáticos de nossa existência. Faz lembrar o último capítulo de Quincas Borba, em que se mencionam que para as estrelas, bem acima do gênero humano, lágrimas e risos acabam tendo o mesmo valor na indiferença dos tempos).

Para entender o Humanitismo, necessário se faz lembrar duas histórias apresentadas por Quincas Borba, ambas para fundamentar seus pensamentos. A primeira está ligada à morte de sua avó, atropelada por uma sege (espécie de carruagem). Tudo havia sido causado porque o dono do carro estava com muita fome e, portanto, com pressa para chegar a sua casa. A velha, que estava no meio do caminho, constituiu um obstáculo, providencialmente eliminado. Conclusão do pensador: tudo concorreu para que Humanitas se mantivesse vivo.

Instado a explicar se achava justo que não se preocupasse com o lado da senhora e de todos o que são tragados por esse princípio, o filósofo recorre a outra história, agora alegórica. Imagina duas tribos e um campo de batatas suficiente para alimentar apenas uma delas. Obviamente haverá batalha. O grupo perdedor é eliminado e tem extirpada sua existência, por ser o mais fraco. O vitorioso, conquista a alimentação. Quincas termina seu raciocínio com uma frase pomposa, que marcará o livro e até toda a obra machadiana: “Ao vencedor, as batatas” (essa frase fez enorme sucesso na época em que o romance foi publicado, apesar de os seus leitores, assim como o protagonista, Rubião, não a entender. Revela, de certa forma, o niilismo machadiano, pois nem mesmo os vencedores adquirem em sua existência algo de valor).

Há nesse ideário algo que se aproxima da lei de Seleção Natural, em que se defende a tese de que o mais forte é que sobrevive. No entanto, não se deve entender que Quincas Borba vai enveredar por caminhos do Naturalismo ao se prender a aspectos meramente biológicos. O que ela representa, na realidade, são os mecanismos encontrados em nosso meio social, em que elementos do sistema lutam para sobreviver e ascender socialmente, não importando a que preço, o que pode custar até o bem-estar e a integridade do próximo.

Essa luta arrivista percebe-se já no início da narrativa, que se passa em Barbacena. Quincas Borba é bajulado por Rubião, que quase se havia tornado cunhado. O interesse é a riqueza do filósofo, solteiro, sem parentes. Seus esforços mostram-se, no fim, frutíferos. Já louco, Quincas morre enquanto estava no Rio de Janeiro (esse momento de Quincas Borba é narrado em Memórias Póstumas de Brás Cubas). Deixa ao interesseiro herança, filosofia e o cão, também chamado Quincas Borba.

Deve-se lembrar que o cachorro é um elemento curioso na obra. Pode-se dizer que o título refere-se a ele, num mecanismo que engana o leitor – o livro não é, na verdade, sobre o homem Quincas Borba. Pode-se, também, ver no animal uma extensão, dentro dos próprios ditames do Humanitas, do princípio do antigo dono. Tanto que algumas vezes o Rubião tinha preocupações com suas ações imaginando que o mestre havia sobrevivido na criatura. É uma observação que faz sentido, tanto no aspecto “espiritualista” como na própria estrutura literária da obra, pois o cão fica como uma suposta consciência do filósofo, a incomodar Rubião.

O fato é que, enriquecido, o protagonista, Rubião, cai na mesma sanha da espécie humana: quer fama, status. Para tanto, Barbacena não o satisfaz. Parte, pois, para a corte, para o Rio de Janeiro. Durante a viagem de trem, conhece o casal Sofia-Cristiano Palha. Encanta-se com a beleza da mulher. E, ao ingenuamente confessar sua riqueza repentina, desperta o olhar de rapina do marido, que rapidamente oferece sua casa e sua ajuda durante a estada do mineiro na capital.

Os cônjuges sofrem de um mal típico na ficção machadiana: lutam por prestígio social, por cavar um espaço no seu meio. Isso justifica o fato de Rubião gostar de exibir sua esposa, apreciando os decotes atraentes que ela usa nos salões. Sua vaidade é satisfeita ao saber que sua mulher é cobiçada. O mesmo se pode afirmar dela, principalmente pelo esmero que tem com vestuário. Preocupam-se em serem bem vistos pela sociedade. O que não implica que tenham de fato valores – o que importa é a imagem, é o conceito e não o fato. É um tema a ser discutido mais para frente.

Aproveitando-se dos encantos de sua própria esposa, Cristiano Palha consegue atrair a atenção de Rubião, começando por adquirir dele um empréstimo. Mas planeja ir mais adiante: quer, por meio de uma sociedade, dinheiro para investir em seus negócios e acabar enriquecendo. Está tão preocupado que quando sua esposa confessa que foi cortejada pelo abastado (foi em uma festa, no jardim da casa dos Palha, quando Rubião praticamente tenta, digamos, atacar Sofia. Foi bruscamente interrompido pelo Major Siqueira, personagem pândega (não falava – produzia uma enxurrada de palavras), que flagrou a inconveniente cena. Mais uma vez, as aparências suplantaram o fato. Achou que estava havendo adultério, quando de fato não havia), faz todo o possível para relativizar qualquer arrufo de dignidade de Sofia. Não pode perder uma escada social tão preciosa. Nota-se, aqui, a que ponto chega o desejo por status.

Aconselhada a não ser brusca com uma pessoa tão preciosa, Sofia acaba assumindo uma postura ambígua para Rubião. Não atende a seus desejos, mas também não os nega enfaticamente, o que alimenta nele esperanças, geradoras de certas complicações.

A primeira delas é um tema que podia ser mais aproveitado, mas que parece ter-se perdido na trama. Tonica, filha do Major Siqueira e que atingiu o posto perigoso de solteirona, vê no mineiro sua última tábua de salvação. Mas percebe no homem o interesse por Sofia, o que lhe desperta desejos éticos de denúncia que, no fundo, são mera sede de vingança e despeito. Mas não reage, apesar de toda a expectativa criada. No fim, sofre um processo de empobrecimento, ao mesmo tempo em que ela e seu pai são desprezados pelo casal Palha, em franca ascensão social. Acaba arranjando um noivo – um tanto desqualificado, mas, como dizia uma outra personagem, D. Fernanda, “um mau marido é melhor do que um sonho” – que termina por morrer dias antes do casamento (parece que o Major Siqueira e Tonica servem para mostrar na narrativa o lado dos perdedores, o que se contrapõe com o Humanitismo defendido por Quincas Borba, de acordo com o qual a opinião, o ponto de vista dos perdedores não conta).

A outra complicação surge com a presença de Carlos Maria, a vaidade em pessoa. Em outro baile, esse jovem passa a noite dançando com Sofia, o que deixa até no ar a possibilidade do surgimento de um adultério. Mas houve apenas a satisfação de dois egos: ela, por se sentir idolatrada; ele, por ter em suas mãos a mais bela mulher do salão. E tudo esfria, não surgindo mais nenhum laço forte além da dança.

No entanto, duas personagens imaginaram que o episódio tinha gerado conseqüências mais terríveis. O primeiro foi Rubião, que se sente enciumado. Em sua mente, aceita dividir Sofia com Cristiano, marido. Mas não aceita com outro amante. A outra personagem é Maria Benedita, prima de Sofia, criada no interior, alheia à civilização, mas que desperta o desejo de evoluir graças ao interesse que sente por Carlos Maria. Sente-se, pois, arrasada ao pensar que a senhora Palha indignamente havia-lhe passado a perna.

Mas, se a menina mergulha na melancolia passiva, Rubião é um pouco mais ativo. Começa a ter delírios paranóicos. Imagina, com base numa história contada (e provavelmente inventada) por um cocheiro, que Sofia se encontrava com Carlos Maria num bairro distante. E o clímax é quando imagina ter como prova uma carta dela para o suposto amante, missiva que nem sequer abrira. Se tivesse, descobriria que era apenas um comunicado sobre a Comissão de Alagoas (o ciúme doentio colhendo provas por demais questionáveis de adultério é justamente a base de outro romance machadiano, Dom Casmurro. Mais uma vez, a aparência faz montar um conceito mais forte do que o próprio fato em si, contrário, mas que acaba perdendo valor. Vivemos num mundo em que a opinião é mais importante do que o fato. Esse é o tema do conto “O Segredo do Bonzo”, do mesmo autor).

Tocou-se, pois, num passo importante da narrativa: a Comissão de Alagoas. Em primeiro lugar, esse episódio vai lembrar a morte da avó de Quincas Borba. Por causa do flagelo que houve na província nordestina, Sofia faz parte de um grupo de caridade composto de senhoras da alta sociedade da corte. Começa, pois, a fincar seu lugar ao sol, graças à desgraça alheia. É também por meio desse grupo que sai conseguir o casamento de Maria Benedita com Carlos Maria, parente de D. Fernanda, mulher conceituadíssima.

Torna-se nítido, nesse ponto, uma característica muito comum às narrativas machadianas: os mecanismos de favor. No Brasil da época de Machado de Assis, muitas vezes a ascensão social não era obtida por meio da competência. Entravam em campo tais mecanismos.

Quem estava por baixo, geralmente gente da classe média, como profissionais liberais ou comerciantes (o caso do casal Palha), esforça-se para conquistar a simpatia de quem está por cima, ricos proprietários da classe alta (o caso de D. Fernanda).

Nesse tipo de relacionamento não há exploração indecorosa, pois os dois lados saem ganhando. O favorecido consegue seu espaço numa sociedade em que eficiência não garante sobrevivência, além da boa fama de gravitar na órbita do favorecedor. E este ganha, além da boa conceituação ao exibir sua influência, a gratidão e a subserviência do favorecido.

Eis, pois, o que enxergamos na relação entre a poderosa D. Fernanda e Maria Benedita, que culminou no casamento desta, alavancando-a para a alta esfera social. Vemos isso também na entrada de Sofia na Comissão de Alagoas. É por meio desse grupo que angaria a simpatia das damas abastadas, principalmente de D. Fernanda, mais uma vez (essa personagem, impositiva, adora exercer seu poder de influência sobre as pessoas), tornando-se uma delas.

Vale a pena notar que o flagelo alagoano foi bastante útil. Não se fala aqui da indústria da seca, problema ainda atual, em que setores acabam lucrando com a miséria nordestina. O que se deve levantar é que por meio dessa desgraça, Sofia e Maria Benedita garantiram sua sobrevivência confortável em seu meio. É, portanto, uma repetição da história de Quincas Borba sobre a morte de sua avó. É Humanitas garantindo sua sobrevivência.

Dentro de tal ponto de vista, os mais fortes é que devem sobreviver. O casal Palha, de acordo com isso, é destinado à vitória. Sabe gerar capital (deve-se entender que capital é diferente de dinheiro. O primeiro tem a função não de possibilitar gastos, mais de ser investido e trazer mais dinheiro). O dinheiro adquirido graças à sociedade com Rubião é investido, originando progresso financeiro. O enriquecimento fica notório na seqüência de mudança de residências: de Santa Teresa vão para a praia do Flamengo e de lá finalmente instalam-se no Palacete do Botafogo.

Rubião é destinado à exploração, à derrota. É o gastador. É o sugado. Sua riqueza esvai-se em empréstimos a fundo perdido, em investimentos no jornal do político Camacho, no grupo de comensais que freqüentam sua casa, aproveitando-se de jantares, charutos e demais benesses.

O mais incrível é que no momento em que a derrocada do protagonista se mostra mais nítida é que ele assume delírios de grandeza, provavelmente provocados pela situação incoerente entre não ter o seu amor por Sofia correspondido e não ser claramente dispensado por ela (o que pode explicar essa incoerência é a vaidade de Sofia. Sente-se lisonjeada ao saber que alguém a venera, por isso não corta os laços, desde que não se comprometa sua reputação (mais uma vez a vaidade). É o que aconteceu com Carlos Maria. Enquanto ele a cortejava, ela sentia-se bem. Abandonada, pois este se casa com Maria Benedita, sente despeito. Não ia praticar o adultério, mas se incomoda em muito com a idéia de ser passada para trás).

Chega até a desenvolver um ciúme doentio, imaginando em suas mãos não uma prova do adultério de sua amada com Carlos Maria: a carta fechada que esta havia mandado ao jovem e que fora desleixadamente perdida por um empregado em frente à casa de Rubião.

O interessante é que, num momento de mistura entre ciúme e decência (mais uma vez, a mistura de elementos dilemáticos orientando as ações humanas), entrega a missiva à Sofia, com a intenção de passar-lhe uma lição de moral. A mulher chega até a ficar corada, mas imediatamente recompõe o domínio da situação, mostrando-se tranqüila. Atitude típica das heroínas machadianas.

A mais estúpida das guerras...
Por Deuzimar Menezes NEGREIROS

"Os homens prudentes sabem tirar proveito de todas as suas ações, mesmo daquelas a que são obrigados pela necessidade"
- Maquiavél

Alguém disse, e já há um bom tempo, que
- Todas as guerras são estúpidas.

Por esses dias, eu, você e todas as pessoas de bom senso já se tocaram de uma inquestionável verdade:

- Todas as guerras são estúpidas. E a que estamos vivendo, convenhamos, é mais ainda.

Não há sequer uma justificativa para o horror das cenas que estamos assistindo. Revolta e nos faz perder toda e qualquer perspectiva de que a humanidade tenha jeito, vontade e alguma reles chance de viver em harmonia.

Em pleno século vinte e um, é inadmissível ver as batalhas campais, os bombardeios, o sofrimento do povo iraquiano. Tudo ao vivo, na medida do possível, e em cores. A espetacularização da guerra. A morte na sua sala de jantar.

Apresso-me em esclarecer. Não vai aqui nenhum sentimento antiamericano, desses que propõe o boicote à Coca-Cola, ao McDonald e ao cartão American Express. Fico a imaginar o dia-a-dia desses rapazes atirados ao deserto, sujeitos a todos os tipos de vicissitudes, com a ilusão de que são os libertadores de um povo, os mensageiros da democracia. Fico a imaginar o sofrimento dos familiares desses garotos que estão a perder os melhores anos de suas vidas, lutando por uma causa inglória, pelo desvario de um governante.

Aliás, o pior é que não há como distinguir o joio do trigo. Saddam é reconhecidamente um tirano, capaz de dizimar adversários políticos com o uso de armas químicas e condenar à miséria todo o povo iraquiano, apesar da fartura que o petróleo propicia ao país. Bush não é propriamente um humanista. A proposta de consolidar o poderio armamentício dos EUA pelos cinco continentes faz a sua cabeça.

É certo que economicamente o mundo (ou o que sobrar dele) será redesenhado no pós-guerra entre os que apoiaram o conflito e os que ficaram à margem da guerra. Aos vencedores, as batatas - ou melhor, o petróleo.

Mas, não é o petróleo a única razão do combate. Seguramente há outros tantos motivos que não nos foi dado a saber, e que escapam pelos vãos dos dedos da nossa compreensão. Mas que o distanciamento histórico, só possível com o passar do tempo, vai revelar.

De qualquer forma, não há motivo que valha a vida de uma pessoa. Todos perdemos com a estupidez da guerra. Todos nos sentimos vítima e algoz. (dmn)

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

sábado, 6 de fevereiro de 2010

CEGUEIRA




"Se puderes olhar, vê. Se podes ver, repara."
Citado no "Livro dos conselhos",
de El-Rei Dom Duarte.






A maioria já deve ter lido ou ao menos ouvido falar do livro "Ensaio Sobre a Cegueira", de José Saramago; vamos apenas pincelar o livro que narra como de repente uma cegueira branca vai se espalhando, contaminando e tomando conta das pessoas; a princípio parece ser incurável e aos poucos toda a humanidade vai ficando cega, reduzida a seres meramente instintivos. Em meio a tanto terror, apenas uma pessoa não perde a visão e é ela, sozinha, que os guia dentro dessa cegueira branca, dentro desse mundo desconhecido e assustador. O filme retrata como o ser humano é capaz de perder anos de civilização ao ser privado de um de seus sentidos. É possível compreender no livro a necessidade dos "cegos", em confiarem naquele único ser que enxerga, de modo a poderem se humanizar e se socializar novamente, pois o governo os envia a um sanatório e, quanto mais pessoas chegam, mais deplorável fica o lugar. Começam a surgir disputas pela comida e pelo domínio do sanatório, situações constrangedoras fazem com que os personagens comecem a se questionar sobre sua dignidade, seu auto-respeito e seu orgulho.

Por trás do livro podemos notar que Saramago não trata apenas da cegueira física, mas da cegueira moral dentro da qual a sociedade se encontra, e sabemos que todo esse orgulho e dignidade são deixados de lado quando o animal humano é posto diante do animal não humano. Em confronto com um ser que ele julga inferior, o animal humano esquece que é civilizado e se bestializa de tal forma que perde sua verdadeira identidade, seu orgulho e seu auto respeito, descendo a níveis que os animais não humanos não conseguem alcançar, a própria "miséria moral". Foi há muitos anos atrás que essa cegueira branca teve início, ao matar no animal humano todo seu senso de moral, compaixão é ética pelos animais não humanos. A ética social, tal como no livro, desmoronou desde então. O animal humano cego pelo orgulho e pela vaidade separou-se da natureza, espezinhou-a e aos seus outros filhos, os animais, com a mesma crueldade com que trata tudo aquilo que lhe é diferente. Nessa sua cegueira, a humanidade é capaz de ignorar o fato de que há uma igualdade senciente entre nós e os animais, é capaz de se manter cega diante de tanto sofrimento, ensaiando o dia em que consiga obter a coragem de enfrentar seus medos em resistir à cegueira a qual a condicionaram.

"O medo cega, já éramos cegos no momento em que cegamos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos.[...] Quantos cegos serão preciso para fazer uma cegueira, Ninguém soube responder." (J. Saramago)

Quanto ainda será preciso mostrar, demonstrar, expor, falar ou escrever sobre o sofrimento animal, antes que os "cegos da ética" notem que estão errados, que estão com medo e que esse medo os cega. Quanto ainda teremos que pedir para que abram seus olhos, pois somente assim essa cegueira se dissipará e a ética voltará a se fazer parte da sociedade? Esse cegos contemporâneos são cegos do coração e da alma, são cegos da moral e da ética, guiam outros cegos e conhecemos a velha frase que nos diz: "Cegos guiando cegos,ambos cairão no abismo". Já estamos caindo no "abismo" a cada dia que passa, por todo o desrespeito que as pessoas mostram em relação aos animais; é a humanidade quem polui o seu próprio ar, que contamina sua própria água, que apodrece sua própria terra, que desrespeita a eles, os animais não humanos e em igualdade, a si mesma, mas a maioria ainda deseja se manter cega diante disso. Essa cegueira não os deixa ver aonde pisam nem em quem pisam, não os deixa livres para escolherem qual caminho tomar, qual posição escolher.São cegos que temem enxergar, porque fazem tantas coisas ruins aos animais que se envergonham, e se fecham cada vez mais dentro de uma cegueira manipulada e cruel.

"Por que cegamos, não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, cegos que vêem, cegos que vendo, não vêem" (J. Saramago)

Essa á a grande parcela da humanidade hoje diante da exploração animal, cegos que vendo, ainda assim fingem não ver, que diante da repulsa que a visão do sofrimento animal acarreta, com uma insensibilidade fora do normal, conseguem ignorar o que lhes mostrado, que hibernam em seus costumes e tradições bárbaras com medo de enxergar a verdade de seus atos cruéis.
"Por que cegamos?"

Porque passamos a nos achar seres privilegiados, seres mais fortes, mais poderosos e, no entanto, nos tornamos seres mais cruéis, mais frios, mais irracionais. Não somos cegos, estamos cegos diante daquilo que não desejamos ver, a agonia animal que praticamos todos os dias.

Assim como os personagens de Saramago perderam o senso de civilidade, hoje, os cegos contemporâneos, perderam o senso de civilidade junto a natureza, junto aos animais, tornaram-se egoístas ao fazerem da Terra, um Planeta para uso exclusivo de animais humanos.Não dividem, não doam, ao contrário, tomam a força, ameaçam, humilham, matam, violam e desmoralizam qualquer ser que se oponha a essa cegueira.

Saramago diz que deseja que seu leitor sofra ao ler o livro, tanto quanto ele sofreu as escrevê-lo. E hoje nós sofremos por essa cegueira que perdura há séculos, séculos de tortura, de morte e muito sangue. Tal como o livro, a vida dos animais tem sido um capítulo brutal e violento, repleto de experiências dolorosas e aflições sem fim.

"Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso." (J. Saramago)

O que nos falta para reconhecermos isso, então? O que nos falta para enxergarmos que, o que fazemos com os animais se opõe a qualquer ética que tentemos criar para nos proteger uns dos outros? Que falta para as pessoas abrirem os olhos e enxergarem que os gritos de agonia só irão cessar quando elas mudarem? Não somos cegos, repito, estamos cegos, e ser cego é uma opção.

A cura para essa cegueira nada mais é do que a aceitação verdade, e a verdade é que realmente não somos bons que, embora o veganismo nos guie para a moralização ética, nós nos afastamos desse guia por medo de descobrirmos que não somos aquilo que pensamos que éramos: seres bondosos e racionais. Temos medo, tanto quanto os cegos de Saramago, de caminharmos por esse mundo desconhecido e assustador que é o respeito aos animais não humanos, não estamos acostumados a respeitá-los, somos orgulhosos demais, porém a cegueira nos tem feito viver num mundo igualmente deplorável ao sanatório onde os cegos de Saramago viviam, fingimos não ver, mas sentimos o cheiro da morte e da nossa sujeira. Quando será que a humanidade se desvencilhará dessa cegueira para alcançar a sua lucidez, pois qualquer pessoa que saiba sobre o sofrimento animal e nada faça a esse respeito, está cego e perdeu parte de sua sanidade. Seria irracional nos colocarmos como seres racionais diante da visão do abate de um animal, diante da vivissecção, diante das touradas, bem mais fácil realmente seria essa posição ocupada pela grande massa, a de seres cegos e insensíveis a dor, não há como explicar de outro modo como alguém que tendo conhecimento sobre o que acontece com os animais, não mude, nem tente mudar.

É preciso que nos se humanizemos e nos socializemos novamente com a natureza, com os animais, com o mundo no qual vivemos, precisamos ter coragem para abandonarmos a cegueira de anos e anos de exploração animal, por uma conduta mais digna, pois o ser humano que usa de sua força contra um ser qualquer, não é digno, nem possui qualquer valor moral e os animais humanos necessitam, urgentemente, se moralizarem perante a natureza e sobretudo, diante dos animais não humanos.

"Se puderes olhar, vê. Se podes ver, repara."1

Se podes enxergar e reparar, então que esperas para mudar?

Referências Bibliográficas
SARAMAGO, José - Ensaio sobre a cegueira.

Nota
1 Metáfora sobre aqueles que tendo visão, se recusam a ver, pois é bem mais fácil ignorar as coisas que fazemos de mal aos outros seres do que passarmos a nos enxergar como verdugos cruéis.

Foto: Bengalinha.Rancho dos gnomos
Autor : Simone Nardi